[Valid RSS] [Valid RSS] Lendas Artes e Literatura Góticas: Junho 2012

Seja Bem Vindos!

29 junho, 2012

A casa de Amityville, de Denis Ferraz

Em Junho de 1965, o Sr. Ronald DeFeo adquiriu a casa nº 122 na rua Ocean Avenue. Era uma casa linda, com uma arquitectura ao estilo Holandês, bastante espaçosa e com uma casa de barcos, um anexo com ligação ao rio. Parecia o Sonho Americano: uma casa de sonho, família feliz e muito dinheiro para gastar. Os DeFeo até colocaram uma tableta em frente á sua casa onde se podia ler "Grandes Esperanças", como que um símbolo da fortuna da família. Mas havia um lado negro escondido na família...
o filho mais velho do casal, Ronald "Butch" Júnior, consumia drogas e praticava pequenos roubos, o que levava a frequentes e violentas discussões com o seu pai. No dia 13 de Novembro de 1974 enquanto toda a família dormia nos seus quartos, Ronald "Butch" Júnior estava a ver televisão no segundo piso, quando se levantou e pegou na sua carabina (uma Marlin Rifle .35). Dirigiu-se primeiro ao quarto de seus pais e disparou dois tiros contra o seu pai Ronald DeFeo e seguidamente disparou mais dois tiros contra a sua mãe Louise. De seguida matou os seus dois irmãos John e Marc e posteriormente também as suas duas irmãs Dawn e Allison. Corpo de Marc DeFeo de 12 anos e a cadeira de rodas que usava temporariamente devido a uma lesão recente causada ao jogar futebol. Infelizmente a fotografia ficou sobreposta com outra, tirada a um dos detetives da policia.
O local do crime é seguro pela polícia enquanto decorrem as investigações Ronald "Butch" Jr fugiu depois de cometer os crimes, desfazendo-se das caixas das balas e da bolsa almofadada da carabina numa sarjeta de outra rua nos arredores. Ele, tentando descartar qualquer culpa pelos assassinatos, dirigiu-se para um bar na área para pedir ajuda dizendo aos seus amigos lá presentes que talvez os seu pais tivessem mortos. Ele acompanhado dos amigos voltaram à casa de onde um deles efetuou um telefonema para a polícia a relatar o sucedido. As provas do crime que foram retiradas da sarjeta onde foram encontradas. Quando a polícia chegou ao local do crime, foram encontrados 6 corpos, todos nas suas camas e todos na mesma posição: de barriga para baixo. Planta da casa indicando o posicionamento e localização dos corpos.



Ao início "Butch" tentou culpar a máfia pelos crimes cometidos contra a sua família, mas os detetives da policia começaram a desconfiar quando encontraram num dos quartos a caixa vazia de uma arma igual à do crime. Mais tarde em julgamento, "Butch" viria a confessar os crimes: "Começou tudo muito rápido.
Assim que comecei, não consegui parar. Foi tudo muito rápido". Ronald "Butch" Júnior, confessado ser o autor dos 6 crimes é levado a julgamento Ronald "Butch" Júnior é acompanhado pela polícia.
Quando lhe perguntaram porque cometeu ele tamanha atrocidade ele adiantou: "Eu não matei a minha família, eles iam matar-me. O que eu fiz foi em auto-defesa e não há nada de errado com isso. Quando tenho uma arma na mão, não há duvida nenhuma sobre quem eu sou. Eu sou Deus".
Depois do trágico acontecimento, em Dezembro de 1975, George e Kathleen Lutz e os seus 3 filhos mudam-se para o número 122 da Ocean Avenue. Eles foram avisados dos crimes que ali ocorreram, no entanto não se sentiram incomodados. Apenas chamaram um padre da igreja católica para benzer a casa. No decorrer da benção, num dos quartos o padre ouviu uma voz dizendo-lhe "vai-te embora", mas para não amedrontar a família, não lhes contou esse acontecimento macabro, no entanto disse-lhes para não usarem aquele quarto pois tinha sentido algo de estranho lá. 

George e Kathleen Lutz mudaram-se para a casa de Amityville depois dos trágicos assasinatos No entanto coisas estranhas começam a ocorrer e eles abandonam a casa apenas 28 dias depois de se terem mudado, deixando tudo para trás. 
A visita da casa de Amityville, mais tarde, por uma equipa de investigadores foi  realizada  para tentar descobrir mais qualquer coisa de sobrenatural. De entre muitas fotografias que examinaram, uma delas captou uma criança espreitando de um dos quartos. Na altura a criança não foi vista por ninguém e não havia crianças juntamente com o grupo. Seria aquele o fantasma de um dos rapazes DeFeo? Não havia nenhuma criança presente no decorrer da investigação mas esta fotografia vem mostrar algo sobrenatural.
Embora "Butch" tenha sido condenado a 6 penas consecutivas de 25 anos de prisão acusado de 6 crimes em segundo grau, muitas questões se mantêm sobre o que realmente aconteceu naquela noite.  Porque não fugiram as crianças quando ouviram os primeiros tiros? Porque motivo foram todas as vítimas encontradas na mesma posição? Ter-lhes-ão ordenado que ficassem de barriga para baixo? Os peritos puseram de parte a teoria de que eles teriam sido assassinados noutro local e depois colocados naquela posição. 

Porque razão não ouviram os vizinhos os tiros? O barulho de uma carabina daquelas é bastante alto e pode ser ouvido a mais de um kilometro e meio de distancia, no entanto a única coisa que um dos vizinhos afirma ter ouvido naquela noite foi o cão da família a ladrar. Ficou ainda provado que não foi utilizado qualquer tipo de silenciador na carabina de modo a abafar o ruído. As autópsias revelaram ainda que as vítimas não estavam sobre o efeito de qualquer tipo de drogas ou substancia que favorecesse os assassínios.
Atualmente "Bucth" continua a cumprir pena na prisão de Green Haven em Nova York e sempre lhe foi negada a saída em liberdade condicional. Ainda assim, mesmo quando questionado, ele continua a alterar a sua história dos fatos ao longo dos anos, deixando assim um mistério no ar. Uma outra versão dos fatos é que a sua irmã Dawn estaria envolvida no crime. Nesta versão, "Butch" e Down teriam combinado matar seus pais, mas para que não houvesse testemunhas ela acabou por matar também as crianças e que "Butch" ao aperceber-se disso, deu-lhe uma pancada na cabeça e matou-a posteriormente com um tiro de carabina. Nos relatórios da investigação policial, ficou anotado que Dawn tinha vestígios de pólvora na sua roupa, o que indica que ela disparou uma arma naquela noite. Como nota adicional, consta ainda que "Butch" e Dawn praticavam incesto. Provavelmente nunca saberemos toda a verdade sobre o que se passou naquela casa na noite de 13 de Dezembro de 1974... A casa foi, entretanto, modificada ,uma das modificações mais evidentes foi o formato das janelas do piso superior. O número da porta foi também alterado. A casa foi posteriormente modificada e o número da porta mudado para desencorajar os turistas de procurá-la.  É freqüente os vizinhos dizerem que a casa de Amitiville foi demolida, mas isso não é verdade. Tudo isto para desencorajar as pessoas que vêm de toda a parte para ver a casa e tentar a sua sorte na descoberta de fantasmas ou demônios.
Depois dos Lutz abandonar a casa, mais famílias viveram na casa, mas não foram registrados mais casos de atividade sobrenatural idênticos aos anteriores.






TEOREMA, de Herbert Helder


El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do Marquês Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de joelhos, as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto um pouco a cabeça, torço o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico de meu Senhor. Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste no meio do tempo. D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados. Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens. O rei olha para mim com simpatia.
Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência espanhola. Tolice. Não me interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o.
Olho de novo para a janela onde se debruça. Ele diz um gracejo. Toda a gente ri. Preparem-me esse coelho, que tenho fome.O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho. O que este homem trabalhou na nossa obra! Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas de gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres. Foi um terrível espetáculo que cidades e lugares apreciaram. Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor.
Levanto-me e fico bem defronte do edifício. Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.-Senhor,- agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.-Muito bem – responde o rei. Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-me.
De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro. Distingo as vozes do povo, a sua ingênua excitação. Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal. Estremeço de frio. Foi o punhal que entrou no meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos. Um moço de rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado. A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo. Percebe como tudo está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem.
Ah, não tenho medo. Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico. Matei por amor do amor – e isso é do espírito demoníaco. O rei e a amante também são criaturas infernais. Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu. Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas. Detesto a rainha.
O moço sobe a escada com a bandeja onde meu coração é um molusco quente e sangrento. Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela. O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita. Mostra-o ao povo, e o meu sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo. Ouvem-se aplausos. Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo assim. Felizmente o nosso rei encontra-se à altura de seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra. Somos também um povo cheio de fé, temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade. Somos todos loucos.
Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul do céu, acima dos telhados. Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina. O claxon de um carro expande-se liricamente no ar. Estamos nos começos de junho. A terra está cheia de seiva. A terra é eterna. À minha volta dizem obscenidades. Alguém sugere que me cortem o pênis. Um moço vai perguntar ao rei se podem fazer, mas este recusa.
-Só o coração, diz. E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente. A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda-me a alma ao Diabo. Eu gostaria de poder agradecer a este meu povo bárbaro e puro as boas palavras violentas. Um filete de sangue escorre do queixo de D. Pedro e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente. O rei come o meu coração. O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade.O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto de seu plinto de granito. As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima. D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça. Aclama-o o povo mais uma vez e dispersa. Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima.
Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim. Meditaremos. Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do amor à eternidade. O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima.Talvez que a sua inspiração não termine aí, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado. O seu corpo ir-se-á reduzindo à força do fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura. E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração. D. Inês tomou conta de nossas almas. Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda. Entra devagar nos poemas e nas cidades. Nada é tão incorruptível como a sua morte. No crisol do Inferno, manter-nos-emos todos três perenemente límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração. E que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui

(Herberto Helder. Os passos em volta. Lisboa: Assírio Alvim.p 121-125.)



O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião

"E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d'alva.”..(Jó, XI, 17)

Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias?...A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo - o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado. A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.
Em verdade morri, o que vem de encontro à versão dos que crêem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente. A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.
- Simplício Santana de Alvarenga!....
- Presente!....
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia.
- "Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!”.
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.)....
- Simplício Santana de Alvarenga!.
- Não está?.
- Tire a mão da boca, Zacarias!.
- Quantos são os continentes?
- E a Oceania?.
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam D. Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto.....
- Simplício Santana de Alvarenga!....
- Meninos, amai a verdade!....
A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu. Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio. O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra.
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.


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A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens. Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade, dosando a gíria. Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver - o meu ensangüentado cadáver - não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar.....
A idéia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Neste ponto eles estavam redonda- mente enganados, como explicarei mais tarde.).
Um dos moços, rapazola forte e imberbe - o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos -, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho - assim lhe chamavam - e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.....
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado. Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Este argumento não me ocorreu no momento.)....
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso. Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam.....
Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma idéia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos Jornais..... Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:....
- Alto lá! Também quero ser ouvido!....
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me. Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível. A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saida que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuidos aos vivos.
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento. Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, que me prontifiquei a fazer rapidamente.....
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa.
Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito nítidas. A bebida que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico.....
Ao clarear o dia saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.)....
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo.....
Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência. Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento. Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte. Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou.....
No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos que Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença que aquele era vivo e este, um defunto. Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados...
Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos...

Autor: Murilo Rubião.
Imagem na postagem: A capa do livro O Pirotécnico Zacarias. S. Paulo: Editora Ática, 1978.
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28 junho, 2012

Uma história de amor e loucura



Pilares adornados emolduram as ruinas cobertas de hera do castelo Baldoon, que se ergue em um trexo desolado das terras baixas escocesas, cerca de 130 quilômetros" de Glasgow, Baldoon foi o cenário de uma história trágica, mais tarde imortalizada por Sir Walter Scott em seu romance Lúcia de Lammermor.
A história real envolveu a familia de Sir James Dalrymple, eminente jurista e estadista. Sua filha mais velha era a bela Janet Dalrymple, que antes de atingir a maioridade comprometeu-se em segredo com um jovem nobre pobre a quem amava, Lord Rutherford.
Os pais de Janet, particularmente sua mãe, uma mulher arrogante cujos ditames nem mesmo seu marido se atrevia a contrariar, reprovaram a união dos dois apaixonados jovens.
Impotente diante da autoritária mãe, Janet não teve outra alternativa senão renunciar à felicidade e, assim, viu-se forçada a faltar com a palavra dada a seu verdadeiro e grande amor, submetendo-se à vontade dos seus pais, obedecendo à determinação destes de casá-la com o homem escolhido por eles, David Dunbar, sobrinho de Rutherford e herdeiro de Baldoon. Triste, infeliz, mas resignada,Janet casou-se com Dunbar no dia 24 de agosto de 1669.
Há várias versões do que ocorreu na trágica noite de núpcias, porém a mais conhecida conta que houve um grande banquete e um esplendoroso baile em Baldoon ,durante o qual o casal se recolheu aos seus aposentos, como ditava a tradição milenar. 
Logo depois, os convidados ouviram assustados, aterrorizantes.gritos vindo do quarto nupcial.
Arrombando a porta, perplexos os pais e alguns convidados acharam Dumbar estendido no chão, ensanguentado por vários ferimentos de faca. A noiva, com o vestido todo sujo de sangue, estava agachada em um canto, murmurando consigo mesma, claramente enlouquecida. 
As únicas palavras coerentes que a ouviran dizer foi: "Levem daqui esse noivo ossudo". Dunbar sobreviveu, mas Janet morreu em menos de um mês. Diz-se que seu fantasma manchado de sangue ainda assombra Baldoon, talvez em espiação, talvez procurando por seu amor perdido. 

Autor: Denis Ferraz



Flor, Telefone, Moça, de Carlos Drummond de Andrade


Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
– Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
– Mas você não vai acreditar, juro.
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
– Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defundo, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!
– No interior isso não é raro…
– Mas a moça era de Botafogo.
– Ela trabalhava?
– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma… Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.
– Que flor?

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– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
– Aloooô…
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:
– O quê?
Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.
– Alô.
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
– Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.
Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
– Vem buscar, estou te dizendo.
– Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.
– Mas quem está falando aí?
– Me dá minha flor, eu estou te suplicando.
– Diga o nome, senão eu não dou.
– Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.
O trote era estúpido, não variava, e moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.
Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.
– Alô!
– Quede a flor…
Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:
– Olhe, vire a chapa, já está pau.
– Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
– Essa é fraquinha. Não sabe de outra?
E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda… Você está vendo que a moça começou a ter medo.
– E eu também.
– Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.
A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam “a voz”.
– A voz chamou hoje? Indagava o pai, chegando da cidade.
– Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.
Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?
O rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia… Discava, ouvia o alô, conferia a voz – não era –, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto – o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça – e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.
Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas. Então a “voz”, que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “você me dá minha flor”, mas “quero minha flor”, “quem furtou minha flor tem que restituir”, etc. Diálogo com essas pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.
Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica…
– Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?
– Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.
Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque – já disse que era distraída – nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse…
O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.
Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?
O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e esta flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?
– Mas, e a moça?
– Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.

26 junho, 2012

A Filha do Diabo, de Maria Ondina Braga


Era uma vez uma rainha que carregava consigo o maior dos opróbrios: ser estéril. Uma rainha piedosa e exausta de tanto ter invocado em vão os favores do Céu: Eis aqui a escrava do Senhor!... Recorrendo, obstinada e fervorosa, aos mediadores divinos: Santa Rita de Cássia, advogada das coisas impossíveis, Santa Margarida de Antioquia, mártir. Uma santa que concebera da Hóstia Consagrada (ou da lua?), os olhos em alvo de mística. A rezar, a penitenciar-se, a jejuar, a oferecer esmolas, a acender velas votivas, a rainha, e o seu ventre seco. Os anos, entretanto, a escoarem-se. O rei idoso e afundado no mar de vícios da governação. E o reinado sem descendência. E a raça no fim. Nossa Senhora do Ó. Novenas, missas cantadas, responsos, oblações. E outra vez Santa Rita de Cássia, Santa Margarida de Antioquia. E um santo lá das Arábias (santo ou mago?) por intermédio de quem a soberana do Sabá alcançara de Salomão: Porque os lábios da mulher alheia destilam mel / e a sua boca é mais suave do que o azeite... Condes, duques, gentis-homens a toda hora a rodeá-la, a cortejá-la. Mas... e a honra de sua majestade? E a modéstia cristã?
Assim do inverno à primavera, da primavera ao inverno. As primeiras neves nas fontes. As primeiras rugas na face. Vendo-se certa ocasião na bandeja de prata polida que uma serva lhe chegou com um copo de água, apercebeu-se de um bico sob o queixo. Deixou de dormir. E se passava pelo sono, sonhava com anjos que a embalavam sobre nuvens brancas e frias como lages fúnebres.Anjos de calção, braços nus, penteado à donzela: os mesmos que, na capela-mor, velavam o Santíssimo? E belos e capados como os eunucos do palácio. Acordava gelada, a sondar as pancadas do coração, com medo de já estar morta."
Ano após ano, assim. Estação atrás de estação. Até que um dia, pela tarde, entrou na igreja, a rainha, e, ao contrário do costume, ia aprumada, arrogante, podia-se compará-la, de perfil, à leoa das armas régias. Confiada de que havia, enfim, de descobrir algum remédio, alguma salvação. O seu orgulho espicaçado pelo escárnio do povo: mulher infecunda como monte maninho! Desatando, pois, a esquadrinhar nichos, relicários, medalhas, guiões, foi do pórtico ao arco-cruzeiro, a rainha, visitou o coro, a sacristia, capela por capela. Por baixo de um altar lateral, o corpo incorrupto do bispo São Clemente: sem nenhuma clemência por ela, por mal de seus pecados, o glorioso bispo. Tão-pouco aquele Cristo que, sendo de cera, escapara milagrosamente a vários incêndios: cera de abelhas criadas no Jardim de Getsemani, segundo a tradição. Nem a medida do pé de Maria Santíssima talhada em papel de obreira, que trouxera consigo no seio durante uma trezena. Nenhuma dessas relíquias. Nem veneras. Nem escapulários. Folheava agora livros sagrados, decifrava pergaminhos. Nada. E foi quando, sem mais nem menos, ao lusco-fusco, deparou com o Diabo. Como nunca havia reparado nele. Santo nome de Jesus? O Diabo ali por todo o lado, a par das imagens bentas, dos seres celestiais: o Diabo-dragão-de-sete-cabeças em combate com o Arcanjo São Miguel, com São Jorge Príncipe da Capadócia, o Diabo do Juízo Final, de forquilha, no altar das almas; a serpente alada do pecado original no vitral do Paraíso Perdido; e uma série de diabinhos pequenos como micos, a tentarem as virgens nos painéis. O Diabo. A importância do Diabo. Quem havia de dizer: o Diabo? Concentrou-se, por instantes, a rainha: e porque não o Diabo? Um minuto de hesitação. Depois, a nuca atirada para as costas, pálpebras descidas, ofegante, o eco da sua voz pela nave: Oh, tu, Anjo das Trevas, concede-me a graça que Deus me negou! Fremente a sua prece: Oh Tenebroso!... Noite escura. Duas brasas, os olhos do Diabo, as fauces arreganhadas de lobo, a língua farpada, as patas de javali. Oh, tu, Maldito!...


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Recolheu-se ao palácio, a rainha, tomada de enlevo tanto como de frenesi. Calor, muito calor, se bem que meados de Setembro. O aroma das uvas maduras. O estalar da palha triga sob o vento suão. Andava el-rei a montar: estropeada de cavalos, ganir de cães, gritos de falcões. Vestiu-se de vermelho, a rainha, como na noite de núpcias, deitou-se no vasto leito, caiu em sono profundo, sonhou um sonho estranho. Um sonho onde seu senhor lhe cingia a fronte no meio de uma grande festa: a da coroação? Só que, desajustada, a coroa escorregava-lhe pelas espáduas, descia-lhe à cintura, algemava-a nas ancas. Ela a estrebuchar naquelas cadeias. Nisto, o mundo a abalar nos eixos, um terramoto, um vulcão debaixo dos pés. El-rei, que subitamente se erguera no ar, a diminuir, a apagar-se, tal uma estrela cadente. Sozinha, a rainha? Não, sozinha não, porque a festa continuava, mau grado o cataclismo. E se liberta. A coroa espedaçada. Liberta, mas também cheia de confusão. Acordou alagada em suor. Pecara. Cometera um pecado mortal. Que o fim da mulher adúltera é mais amargo que o absinto / e agudo como a espada de dois gumes... Levantou-se, tremente, mirou-se no espelho do toucador, achou-se mais nova e mais bonita. Adultério? Qual adultério! Sacudia os cabelos ao jeito de querer afastar os últimos escrúpulos. Aliás, quem é que podia dizer: estou puro, estou limpo? Amanhecia. A exaltação da véspera tornou a assaltá-la. Tinha os peitos erectos, e a noz chocha da madre reverdecia-lhe. Nesse mesmo dia, o rei, que Caçara um precioso espécimen de veado-de-espelho, presenteou-a coma armação.
Decorreu um mês. Sua majestade regressou da montaria. A rainha mandou frisar a trança, mandou esmaltar a cara, mandou servir um banquete. Éditos correram cidades e aldeias: ia nascer o herdeiro do trono.
A criança que nasceu foi uma menina, uma menina forte, vivace, pele de oiro negro, cabelo cor da chama dos archotes, olhos de cisterna e de relâmpago. Uma exótica, arrepiante formosura. Como se lhe ia chamar? A rainha é que escolheu o nome: Rahiva. Porque procedia de uma teimosa, dilatada raiva de esperar. Porque havia de trazer consigo todo o assanho, toda a paixão de vingar, de ser, de vencer. Rahiva, nome que queria dizer furibunda fome de amor, e também protesto e prodígio.
Rahiva que, consoante os cálculos reais, nascera adiantada, cresceu maravilhosamente, como a relva ao sol úmido dos trópicos. Com dez anos tinha já aprendido as intrincadas lições de reinar. Cultivava tão bem ou melhor que o pai as flores malignas da ambição e da tirania. E gozava do dom de estar em diversos lugares a um tempo. E intrigava, adulava, traía.
O velho monarca, cada vez mais mirrado e mesquinho, todo se revia agora na princesa Rahiva, e para ela alimentava grandiosos projectos. Verdade que, de longe em longe, um espinho lhe picava a consciência espessa e frágil de papel-de-mataborrão: nessas alturas achava-se a perguntar a si próprio se seria realmente o progenitor de Rahiva. A princesa gerara-se no princípio do outono, quando ele dormia as noites abrigado num toldo de peles ao fundo da coutada, e só sabia da seta e do sangue, como na guerra. Porém, a beleza, a esperteza, a precocidade de Rahiva acabavam por lhe amodorrar tais idéias. Era de certeza sua filha, herdara-lhe os méritos, as maneiras, as manhas. E começou a tratar de lhe arranjar um noivo condigno.
No dia em que o rei participou à filha as negociações em curso, esta, recolhendo-se mais cedo que o habitual, encomendou para a noite um par de sapatos de ferro. Sapatos de ferro? Para quê sapatos de ferro? Ninguém compreendia, mas também ninguém a demovia. Apressou-se o ferrador a confeccionar os chapins na forja faiscante, pondo neles todo o esmero que punha as ferraduras do alazão real. Rahiva retirou-se para os seus aposentos, despediu as camareiras, tirou as roupas, calçou os pesados sapatos, e desapareceu. E sempre assim daí em diante. De dia, a princesa aplicava-se aos afazeres da corte, conferenciava com os políticos, despachava gostosamente, em nome do pai, ordens de prisão e sentenças de morte, cavalgava, enfeitava-se, resplandecia. Pela calada da noite, todavia, desnudando-se, aí enfiava ela os sapatos de ferro e sumia – pela janela? Pela fechadura da porta? Todas as noites um par a estrear. O ferrador, curvado sobre a ferraria e a fornalha. O rei intrigado e tenso. As damas-de-honor queixando-se de um fedor a enxofre queimado. Já antemanhã, sua alteza a dormir a sono solto, como uma criança, e, à entrada da antecâmara, dois pedaços de ferro ardido e gasto.
Entrementes Rahiva mandara forrar as peredes do quarto-de-cama a cetim cor de lume, e a sua beleza de oiro negro encandecia. Os príncipes pretendentes rejeitava-os ela um por um. Corriam na corte extravagantes boatos e histórias as mais fantamasgóricas. No entanto, só a rainha, a rainha, só, sabendo, arrepiada, que Rahiva se precipitava todas as noites no Inferno para bailar, orgiar com os demônios. A prova: os chapins de ferro requeimados e rotos, o cheiro sulfuroso e sufocante.
Extraviado o sono. El-rei entra a arrastar-se a desoras pelas galerias do paço, o corpo dobrado em dois, e suspiros, e constante cismar. Que fadário o da princesa? Que segredo? Que praga? Convoca os conselheiros, o confessor. Conspiram: um baile alongado até a madrugada, os portões trancados, Rahiva a dançar com o filho do corregedor-mor. Impossível interromper o passo de dança, abandonar tão nobre parceiro, despir-se, trocar o elegante calçado de camurça pelo grosseiro de ferro. E caso abalasse mesmo, todo um esquadrão atrás dela. Os seus cavaleiros voavam à velocidade dos ciclones. /span/div
Dito e feito. No Sarau, Rahiva dança com os jovens representantes da flor da nobreza, escuta, complacente, as rimas dos bardos e as canções dos menestréis, sorri, conversa, exibe-se. Até que o galante filho do corregedor lhe vem solicitar um minuete. Falta um quarto para a meia-noite. No seu áureo assento, cofiando a barba grisalha, o rei não a larga de vista. Soam as doze badaladas. Pelo rosto da princesa perpassa uma nuvem que logo se adensa, tal um céu de borrasca. Sucede então ali um fenômeno tão subtil e tão terrível que, mais tarde, ninguém ousará recordá-lo, e, se alguém o recorda, persigna-se. Um rodopio. Nas paredes espelhadas, as figuras, invertidas, causam a impressão de enforcados nos lustres e nos cruzamentos das ogivas. Pares desemparelhando-se. Alarido. As luzes sopradas por uma lufada. Coisa de minutos, quanto muito. E, nesta barafunda, onde está a princesa? Onde está a princesa. brada o rei. Nenhuma pessoa o atende. Os fidalgos a discutir pela trova das noivas. Senhoras a desacordar. No cercado, uns contra os outros, os cavaleiros como se acometidos de loucura, armas quebradas, o relinchar funesto dos corcéis.
Sucumbe o soberano. Nigromantes, mágicos, astrólogos, desentendidos na consulta dos catarpácios e dos astros. O filho do corregedor jurando que Rahiva se encontra dentro do salão, tomando os seus vestidos por ela. Sequer os guardas de atalaia tendo dado por que a princesa saísse. "
Por último, já deitados lado a lado, o rei pergunta à rainha, gaguejante de ressentimento e mal contida fúria, como engendrou ela semelhante filha. Dele, não, ausente à data. Acerta a voz. Esforça-se por se dominar. De início duvidara do seu mais trigueiro e esbelto donzel que condenara ao cadafalso por lhe ter posto a coroa à banda na cerimônia do beija-mão.
A rainha, muda, amordaçada de pavor no lençol de cambraia. O rei emudece também, o olhar fito no dossel. Está visto que os seus pensamentos seguem agora um rumo diferente. Se a princesa Rahiva se comporta de modo tão diverso do das demais criaturas, não terá a criança vindo lá do Alto? Muito religiosa, a rainha, sempre na igreja. Amores com os santos? Com os anjos? Os querubins que sustêm as luzes do sacrário? O donairoso e valente Arcanjo São Miguel?
Mais calmo, sua majestade recupera a palavra. Não é ele senhor e dono da esposa? Não tem o direito de saber tudo? E descanse a rainha que não lhe pedirá contas. Princesa tão formosas e prendada, rara, decerto, no mundo. Orgulha-se de Rahiva. A menina, porém, atingida a puberdade, exige um par de sapatos de ferro todas as noites e desarvora do palácio ninguém advinha para que sítio. Que quer aquilo dizer? Que mistério há ali? “Vamos, responda, dê uma explicação!” Fala aos sacões, quase aos berros, sentado na cama, esguedelhado, a tiritar, decrépito.
'Bem... fora um anjo, sim, mas não os querubins nem São Miguel, responde a rainha. Assexuados, ambos: calções de mancebo, cabeleira e ombros de dama.
"Que anjo, então?
Um negro, peludo de carvões nos olhos.
Com asas?
Sim, com asas. Asas agudas, membranosas, roxas de morcego. 
O rei vai escorregando sobre as almofadas, como se prestes a desfalecer. 'Esse anjo... esse anjo... encontra-se na igreja?
Sim, na igreja, nos retábulos, nas pinturas murais. Nunca antes se firmara nele. O único, contudo, que acedera ao seu rogo de fecundidade. De pálpebras cerradas, a rainha, tal se estivesse a ser beijada, a ser amada. O frenesi e o enleio a retomá-la. Fragantes e mornas as uvas na ramada do pátio. Latido de cães. Nesse dia, vossa majestade presenteou-me com a armação de um veado-de-espelho. Fala lenta, voluptuosamente. O anjo negro também tinha armação. “Aos santos, aos anjos, implorei e de rojo, com humildade e respeito; a este ordenei-lhe, altiva, confiante. E devo dizer-lhe, meu senhor, que jamais me senti tão confortada”. O rei a resfolegar como se um enorme peso o esmagasse: É filha do Diabo! É filha do Diabo!
Um vendaval varre o palácio de lês a lês. Ecoam os sapatos de ferro nas lajes do chão, e estremece o leito real com as palpitações do sangue do rei mirrado e mesquinho: “É filha do Diabo! É filha do Diabo!” O Diabo refastelado no sólio de oiro, bebendo pela taça de diamante, desvendando sigilos de Estado, maquinando, minando, fornicando. O Diabo a abraçar a rainha pelos rins, a enaltecê-la, a levá-la em triunfo pelos caminhos da terra. O povo em fileiras apertadas a aclamar o Diabo. O Diabo monstruoso a pejar a rainha. Ela estorcendo-se no furor, na febre de parir o Diabo. O Diabo a resplandecer como uma constelação no falso firmamento da corte. Ele próprio a idolatrar o Diabo!... Legítimo e nefando sucessor do poder, o Diabo a lançar-se-lhe ao gasnete. A sua alma a debater-se, perdida, nas garras do Diabo.
Um alvoroço pela cidade. Conta-se que, à hora a que o monarca rendia o espírito, ouvia-se um estouro e via-se sair fumo dos aposentos da princesa Rahiva, enquanto a rainha disparava para a igreja.
No adro da igreja, cobras, macacos, bichos imundos a rabiar. Lá dentro, painéis rasgados, vitrais estilhaçados, e, coisa mais espantosa ainda: o Arcanjo São Gabriel a trespassar com a lança um colo de mulher.

'Conto inserido na antologia O Fantástico no Feminino/ Moraes, 1985/

A DAMA DO PÉ-DE-CABRA, de Alexandre Herculano


Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia. E não me digam no fim: — "não pode ser." — Pois eu sei cá inventar coisas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague. Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos do que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos como Cristo lhe perdoou. 
Silêncio profundíssimo; porque vou principiar:
D. Diogo Lopes era um infatigável monteiro: neves da serra no inverno, sóis dos estevais no verão, noites e madrugadas, disso se ria ele. Pela manhã cedo de um dia sereno, estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco montês, que, batido pelos caçadores, devia dar naquela assomada. Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar. Levantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ela estava assentada uma formosa dama: era a dama quem cantava. 
O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco. "Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me cativastes? 

"Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu senhor de Biscaia." "Se já sabeis quem eu seja, ofereço-vos a minha mão, e com ela as minhas terras e vassalos. 

"Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavaleiro que és. Guarda os teus vassalos, senhor de Biscaia, que poucos são eles para te baterem a caça. 
"Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu oferecer digno de vós e de mim; que se a vossa beleza é divina, eu sou em toda a Espanha o rico-homem mais abastado?" 
"Rico-homem, rico-homem, o que eu te aceitaria em arras coisa é de pouca valia; mas, apesar disso, não creio que mo concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."
"E se eu te amasse mais que a minha mãe, por que não te cederia qualquer dos seus muitos legados? 
"Então, se queres ver-me sempre ao pé de ti, não jures que farás o que dizes, mas dá-me disso a tua palavra." "A la fé de cavaleiro, não darei uma; darei milhentas palavras. 
"Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma coisa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino e que, estando para morrer, ainda te recordava. 
"De que, de que, donzela? acudiu o cavaleiro com os olhos chamejantes. — De nunca dar tréguas à mourisca, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom cristão. Guai de ti e de mim, se és dessa raça danada! 
"Não é isso, dom cavaleiro — interrompeu a donzela a rir. — O de que eu quero que te esqueças é o sinal da cruz: o que eu quero que me prometas é que nunca mais hás-de persignar-te. 
"Jsso agora é outra coisa" — respondeu D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdera o caminho do céu. E pôs-se um pouco a cismar. E, cismando, dizia consigo: — De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Santiago. Ela por ela. Um presente ao apóstolo e duzentas cabeças de cães de Mafamede valem bem um grosso pecado. E, erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou:
— "Seja assim: está dito. Vá, com seiscentos diabos." E, levando a bela dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado. Só quando, à noite, no seu castelo, pôde considerar miudamente as formas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados como os de cabra.
Dirá agora alguém: — Era, por certo, o demônio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria! Pois sabei que não ia nada. Por anos, a dama e o cavaleiro viveram em boa paz e união. Dois argumentos vivos havia disso: Inigo Guerra e Dona Sol, enlevo ambos de seu pai. 
Um dia de tarde, D. Diogo voltou de montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo ao aposento onde comia, para se regalar de ver a excelente preia que havia preado. Seu filho assentou-se ao pé dele: ao pé da mãe Dona Sol; e começaram alegremente seu jantar 
"Boa montaria, D. Diogo — dizia sua mulher. Foi uma boa e limpa caçada. 
"Pelas tripas de Judas! — respondeu o barão. Que há bem cinco anos não colho urso ou porco montês que este valha!"
Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado, virou-o de golpe à saúde de todos os ricos-homens fragueiros e monteadores. E a comer e a beber durou até a noite o jantar. Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a quem muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono e, até, com os servos de casa. 
A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e dela não menos prezada. 
O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semicerrados, como quem dormitava. A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pêlo liso e macio reluzia-lhe com um reflexo avermelhado. 
O barão, depois da saúde urbi et orbi feita aos monteiros, esgotava um quírie comprido de saúdes particulares, e a cada nome uma taça. Estava como cumpria a um rico-homem ilustre, que nada mais tinha que fazer neste mundo, senão dormir, beber, comer e caçar. E o alão cabeceava, como um abade velho em seu coro, e a podenga saltava. 
O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua carne e medula e, atirando-o ao alão, gritou-lhe: — "Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe senão correr e retouçar.
" O canzarrão abriu os olhos, rosnou, pôs a pata sobre o osso e, abrindo a boca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir deslavado. Mas logo soltou um uivo e caiu, perneando meio morto: a podenga, de um pulo, lhe saltara à garganta, e o alão agonizava. 
"Pelas barbas de D. From, meu bisavô! — exclamou D. Diogo, pondo-se em pé, trêmulo de cólera e de vinho. —A perra maldita matou-me o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorchá-la." E, virando com o pé o cão moribundo, mirava as largas feridas do nobre animal, que expirava. 
"A la fé que nunca tal vi! Virgem bendita. Aqui anda coisa de Belzebu.
" — E dizendo e fazendo, BENZIA-SE E PERSIGNAVA-SE. 
"Ui!"— gritou sua mulher, como se a houveram queimado. O barão olhou para ela: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras, a boca torcida e os cabelos eriçados. E ia-se alevantando, alevantando ao ar, com a pobre D. Sol sobraçada debaixo do braço esquerdo: o direito estendia-o por cima da mesa para seu filho, D. Inigo de Biscaia. E aquele braço crescia, alongando-se para o mesquinho, que, de medo, não ousava bulir nem falar. E a mão da dama era preta e luzidia, como o pêlo da podenga, e as unhas tinham-se-lhe estendido bem meio palmo e recurvado em garras. "Jesus, santo nome de Deus!" bradou D. Diogo, a quem o terror dissipara as fumaças do vinho. E, travando de seu filho com a esquerda fez no ar com a direita, uma e outra vez, o sinal da cruz. E sua mulher deu um grande gemido e largou o braço de Inigo Guerra, que já tinha seguro, e, continuando a subir ao alto, saiu por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava. 
Desde esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha. A podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguém no castelo lhe tornou a pôr a vista em cima. D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrecido, porque já não se atrevia a montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer sua tristura, e, em vez de ir à caça dos cerdos, ursos e zebras, sair à caça de mouros. Mandou, pois, alevantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira, e provar seus arneses. Entregou a Inigo Guerra, que já era mancebo e cavaleiro, o governo de seus castelos, e partiu com lustrosa mesnada de homens d'armas para a hoste del-rei Ramiro, que ia em fossado contra a mourisma de Espanha.Por muito tempo não houve dele, em Biscaia, nem novas nem mensageiros.


O ovo com solenidade, Duílio Gomes


O CEGO ESTAVA QUEBRANDO O OVO para fazer omelete quando o porco entrou na cozinha. Sentiu-o aos seus pés; em silêncio, cheirava os seus pés. O cego estava de sandálias e a saliva do porco era uma coisa quente e líquida molhando o seu calcanhar direito. Os músculos do cego se retesaram. Sua ;mulher e sua filha haviam saído. Elas sabiam do grande medo que ele tinha de porcos e por isso os trancavam no chiqueiro. O cego percebeu, dentro da névoa do seu medo, que eles haviam arrebentado as tábuas podres do chiqueiro e saído. A mulher já o havia advertido: "As tábuas do chiqueiro estão podres. Precisamos trocá-las.” Eram três porcos gordos e espremidos no chiqueiro cujas tábuas iam apodrecendo debaixo das chuvas e dos carunchos. Viviam alucinados pelo calor, engordando e envelhecendo com as moscas que lhes trepavam nos lombos. O cego estava sempre adiando a data de matá-los — esperava uma visita importante qualquer, já não sabia há quanto tempo eles estavam em sua casa. Só sabia de sua aversão por eles e de uma iminente visita importante, quando então os mataria. Havia deixado a casca do ovo cair no chão e o porco agora a comia. Pelo menos enquanto ele come não se lembra de mim, pensou. Os velhos e agudos dentes do porco trituravam a casca e o cego pensou então que aqueles dentes, apesar de velhos, rasgariam a carne de suas pernas como se elas fossem manteiga. Tinha tanto medo do porco morder as suas pernas que elas não obedeciam ao seu intenso desejo de correr, e permaneciam fincadas no chão, expostas aos agudos dentes velhos do porco que agora, pelo silêncio, o cego sabia ter terminado de comer a casca do ovo e começava a cheirar o ar com seu largo, sujo e enrugado focinho de porco velho. As tábuas da escada que dava do quintal para a cozinha rangeram. Estão subindo os outros, pensou o cego e o seu terror nesse momento foi tão intenso que ele sentiu, no escuro poço de sua vertigem, as pernas bambearem. Não posso cair, murmurou, não posso cair. Como um soco em sua memória, o aviso da mulher: só chegaremos à noite. Haviam saído, ela e a filha, para visitar uma parenta doente e o cego se rendeu, subitamente, à dolorosa realidade — ter de permanecer durante longo tempo como um monumento lívido e frágil em meio aos porcos. Eles agora rodeavam as suas pernas, grunhindo. Misturado aos seus roncos, que ecoavam na cozinha como a nota mais grave de um instrumento de sopro, o cheiro enjoativo do ovo sobre o prato. O cego lembrou-se, com uma ponta de desespero, da omelete que nunca comeria e então fez o gesto que talvez o salvasse da fome e do ódio dos seus porcos: com as mãos trêmulas derramou o ovo no chão. Foi um gesto mecânico e tateante mas que inaugurou nele uma certa paz — os porcos lambiam o ovo no chão e isso era a trégua; enquanto eles se alimentavam não se lembrariam de suas pernas.
Sua mulher tinha costume de deixar os mantimentos sobre a pia, na frente da qual se encontrava, e ele tentava agora localizá-los. Sabia que a menina havia feito a feira naquela manhã e que enquanto entregava os mantimentos para a mãe, ia nomeando-os. Estava tudo na sua frente, além do vácuo negro dos seus olhos. Precisava detectar os mantimentos e com eles saciar a dura fome dos porcos. Apalpando a superfície úmida da pia, seus dedos tocaram num objeto morno. Era um objeto morno e redondo, com uma haste encimando-o. Abóbora, pensou, e puxou-a pela haste. O ruído seco da abóbora caindo no chão foi o ruído de uma abóbora que se partia e que se ofertava, amarela e luminosa, à avidez dos porcos. O ruído que se seguiu ao da abóbora se partindo foi o ruído dos porcos mastigando. Mastigavam com pressa e grunhiam. Havia satisfação nos seus grunhidos.
O cego, então, com uma escura dificuldade, foi localizando e atirando ao chão o arroz, os quiabos, a couve, até que, não encontrando mais nada para atirar, escutou: a bolha de saliva arrebentando . Pelo denso silêncio que subia do chão ele entendeu que a bolha de saliva fora o final do festim. Entendeu também, com a profunda e mágica percepção dos cegos, que os porcos ainda não estavam saciados. E que o rodeavam, pensativos, os olhos fixos em suas pernas.

25 junho, 2012

Canibais, de Moacyr Scliar

Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação.
O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta.
Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subsequentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que se contentava em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas.
No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel.

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De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício. Bárbara observou-a em silêncio.
Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc. Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas. Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc. No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro.
Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho. Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas. Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor.
Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação.
No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida
- Foram os índios. Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade.

Fonte: Os melhores contos de Moacyr Scliar, Global Editora.



Uma Noite de Verão, de Ambrose Bierce

O fato de estar enterrado não parecia provar a Henry Armstrong que ele tivesse morrido: sempre fora um homem difícil de convencer. Que ele estivesse realmente enterrado o testemunho de seus sentidos o levava a admitir. Sua postura – deitado de costas, as mãos cruzadas sobre o estômago e atadas com alguma coisa que ele partiu facilmente, sem melhorar muito a situação –, o confinamento estrito de toda a sua pessoa, a escuridão negra e o silêncio profundo, tudo isso compunha um corpo de evidência impossível de contradizer, e ele o aceitava sem objeção.
Mas morto – não. Ele estava apenas muito, muito doente. E tinha, além disso, a apatia dos inválidos, sem se preocupar demais com o destino incomum que lhe fora reservado. Não era filósofo – apenas uma pessoa ordinária e rasa, dotada, naquele momento, de uma indiferença patológica: o órgão do qual temia conseqüências estava entorpecido. Assim, sem nenhuma apreensão particular quanto ao seu futuro imediato, dormiu, e tudo estava em paz com Henry Armstrong. 
Mas alguma coisa se passava logo acima. Era uma noite escura de verão, rasgada por clarões ocasionais de relâmpagos que dardejavam contra uma nuvem baixa, a oeste, anunciando tempestade. Essas iluminações breves, balbuciantes, faziam aparecer, com nitidez espectral, os monumentos e as lápides do cemitério, tal como se os colocasse para dançar. Não era uma noite em que uma testemunha qualquer pudesse, de modo crível, perambular por ali, de modo que os três homens que lá apareceram, a cavar o túmulo de Henry Armstrong, se sentiam razoavelmente seguros.
Dois deles eram estudantes da faculdade de medicina, que ficava algumas milhas adiante. O terceiro era um negro gigantesco, chamado Jess. Por muitos anos, Jess tinha sido empregado no cemitério como uma espécie de faz-tudo, e era o seu bordão favorito dizer que conhecia “todas as almas do lugar”. Pela natureza do que estava a fazer agora, inferia-se que o lugar não era tão populoso quanto o registro o teria demonstrado.

Do lado de fora do muro, numa parte distanciada da estrada pública, estavam um cavalo e uma carroça a esperar.

O trabalho de escavação não era difícil: a terra com que o túmulo fora coberto poucas horas antes oferecia pouca resistência, sendo logo retirada. Remover o esquife de dentro do nicho foi menos fácil, mas não impossível, pois se tratava de uma habilidade de Jess, o qual desparafusou a tampa com cuidado e a colocou de lado, expondo o corpo com suas calças pretas e a camisa branca. Nesse exato instante o ar se inflamou, o estrondo ensurdecedor do trovão abalou o mundo, e Henry Armstrong se sentou tranqüilamente. Com gritos inarticulados, os homens fugiram de pavor, cada um numa direção. Por nada no mundo dois deles teriam sido persuadidos a retornar. Mas Jess era de outra têmpera.

No lusco do amanhecer, os dois estudantes – pálidos e exaustos do terror e da ansiedade causados pela aventura precedente, que ainda latejavam tumultuários em seu sangue – se encontraram na faculdade de medicina. ;
– Você viu? – gritou um deles.
– Meu Deus, sim! Que vamos fazer?
Foram até os fundos do edifício, onde viram um cavalo atrelado a uma carroça e amarrado a um mourão junto à porta da sala de dissecação. Entraram mecanicamente no cômodo. Sentado num banco, oculto pela obscuridade, estava Jess. Levantou-se, sorrindo, todo olhos e dentes.
– Estou esperando pelo meu pagamento – disse.
Estendido nu sobre uma mesa comprida jazia o corpo de Henry Armstrong, a cabeça lambuzada pelo sangue e pela lama de uma pazada.

(Traduzido por Renato Suttana)