[Valid RSS] [Valid RSS] Lendas Artes e Literatura Góticas: Julho 2012

Seja Bem Vindos!

31 julho, 2012

Os Mistérios e Assombrações do Bloco 5

No condomínio que morei, quando criança, existiam varias lendas de assombrações e cemitérios escondidos em baixo dos prédios, cada bloco tinha uma assombração de estimação, mas nenhum dos blocos superava o bloco 5, varias pessoas chegaram a se mudar dali para fugir das assombrações. Toda semana acontecia algo assombroso no bloco 5, quando a minha mãe (que era a sindica) precisava ir ao bloco 5, ela se benzia e rezava antes de colocar os pés naquele bloco, esse bloco era tão assombrado que ganhou o apelido de “Bloco Zé do Caixão”.
Eu e outras crianças do condomínio morríamos de vontade de ver uma assombração, algumas vezes agente ia brincar no bloco 5 só para ver se viamos algo, mas apesar de algumas janelas batendo sozinhas (e sem vento) e alguns barulhos estranhos, nós nunca tinhamos visto nada. Um dia decidi fazer um grupo para explorar o bloco 5 à noite. Convidei um amigo que convidou outro amigo, que convidou mais dois... no final das contas eram 15 crianças querendo passar a noite em claro na procura por assombrações. Nós decidimos fazer essa “expedição” (para quem era criança aquilo era um máximo da aventura) num final de semana, das 15 crianças apenas 5 tiveram coragem para enfrentar o desafio... Ficou combinado que iríamos pousar na casa do Marquinho e à noite iríamos sair de fininho (como a mãe do Marquinho tomava remédios para dormir e uma vez dormindo ela não acordava nem com um terremoto, iria ser fácil sair de fininho), ficou combinado também que cada um iria levar uns suprimentos para ajudar a passar a noite, quem não pudesse levar suprimentos teria que levar algo para ajudar na caçada ( lanterna, mochila, crucifixo, alho, estilingue...).
Como havíamos combinado, fomos passar a noite na casa do Marquinho, colocamos os pijamas e fingimos que fomos dormir, quando escutamos os roncos da mãe do Marquinho, agente trocou de roupa, pegou os suprimentos e saímos de fininho pela porta.
Estávamos todos excitados, era a primeira vez que a maioria ficava acordada após a meia noite. Cortamos caminho pelo bosque, sempre tomando cuidado para não sermos pegos pelo segurança (como ele vivia dormindo, não iria dar problemas)
A noite tudo fica mais assustador, apesar de felizes pela grande aventura, estávamos com tanto medo que ninguém se desgrudava do grupo. A parte mais assustadora foi entrar no bloco 5 depois da meia noite, ele já era macabro de dia, a noite ele ficava mais macabro ainda.
Pé por pé, devagarinho, iniciamos a explorar o bloco 5, começamos no térreo e pelas escadas nos fomos galgando andar por andar, até chegarmos no 6° andar, que era o último, dai decidimos descer andar por andar. Procurando em todos, subimos do térreo para o 6° andar diversas vezes, sempre à procura de assombrações e filmando tudo, tínhamos levado uma câmera, já que gravar um filme de um fantasma iria ser uma boa prova e uma boa oportunidade de aparecer na TV... Assim, tratamos de gravar tudo, mas depois começou a acabar a fita e a bateria, então desligamos a bendita filmadora e só ligaríamos de novo quando encontrássemos um fantasma.
Depois de 2 horas de buscas, bateu uma fominhaaaaa... Então, sentamos juntos nos degraus das escadas e montamos um piquenique ali mesmo. No final do piquenique, escutamos, nitidamente, um choro de criança. Todos se borraram de medo, apesar das penas estarem tremendo eu desci as escadas. Além de me arrastar nas pernas bambas, eu tive que arrastar os outros em pior estado e, mesmo apavorados, a nossa curiosidade era ainda maior. Assim, fomos até a origem do som, o andar térreo. Ligamos a filmadora e procuramos a assombração, então começamos a ouvir barulhos vindo do mesmo lugar, parecia dois bebês chorando. Andamos de um lado para o outro procurando a assombração, mas, o que acabamos por encontrar foi um casal de gatos namorando... Ah!... Foi um alivio... Depois ficamos com raiva e enxotamos os gatos que estavam no cio...
Já eram quase 5 da manhã e nada de assombração, espírito, fantasma, capeta, saci, mula sem cabeça, cuca... nadaaaaa, agente procurou, procurou muito e nada. Estávamos decepcionados e pensando em desistir da idéia de achar um fantasma, nos juntamos no 2° andar para decidir se ficavamos mais um pouco ou se íamos embora. Começamos a discutir se ficávamos ou não, quando, de repente, a nossa conversa foi interrompida por passos subindo as escadas, “Vixe Maria!” Tem gente vindo e vai nos ver...” (pensei comigo), ficamos mudos, morrendo de medo de ser o vigia e que ele nos dedurasse para nossos pais.

Para nossa surpresa era uma bonita menina da nossa idade que saiu do vão das escadas, ela era pálida, de cabelos longos e castanhos e usava uma camisola branca longa, que arrastava no chão, até ai tudo bem, não tinha nada de mais, ela foi para o outro lado do corredor e entrou em um dos apartamentos. Andava devagar e parecia nem ter nos notado. Mas, um detalhe estranhíssimo chamou-nos a atenção e deixou-nos arrepiados: ela entrou sem abrir a porta que estava fechada... Deus nos acuda!... Quando nós percebemos o que acabara de acontecer, bem às nossas vistas, bateu um terror avassalador, uma sensação medonha, e saímos voando dali direto para o apartamento do Marquinho. Passou o resto da noite sem dormir, com medo da assombração voltar, a maioria ficou uma ou duas semanas sem dormir e nenhum de nós ousou sequer pensar em passar perto do bloco 5 outra vez... A grande frustração foi não ter filmado a assombração.

Fonte: www.alemdaimaginação.org.com

20 julho, 2012

A Casa Mal Assombrada


Minha familia havia comprado um sitio muito antigo na cidade de Pinhal do Sudoeste, corria uma história na cidade de que a antiga dona da casa havia sido assassinada pelo seu ex-amante a punhaladas dentro de um dos quartos, por isso aquele sitio era assombrado, ninguém deu muita importancia ao fato, achavamos que era coisa de caipira.
Já na primeira noite, eu que não acreditava nessas coisas passei a respeitar todas as lendas e hisória que o pessoal conta pelo Brasil afora. O sitio era bem grande e antigo com uma aparencia sinistra, tinha 4 quartos, a cozinha não era ligada com o casarão antigo, nem o banheiro, por isso a noite eu tive que dar a volta pela casa para conseguir urinar, neste momento pude perceber alguem parado próximo a um arbusto me observando, nem fui ao banheiro, voltei correndo o mais rapido que pude e enfiei-me em baixo dos lençóis, passando a ouvir varios ruidos pelo corredor, arranhando as paredes, e as vezes até uns gemidos de dor, até que de repente tudo ficou no mais absoluto silencio, ouvindo apenas os animais noturnos.
Quando amanheceu o dia não contei nada a ninguém. O dia estava correndo normalmente, vez ou outra, viamos algum animal andando pelas arvores ou colhendo frutos no chão, a tarde passou e a noite chegou. Noite sem lua. escura e amedrontadora naquele lugar ermo.
Eram aproximadamente 2:00hs da manhã, quando o barulho começou novamente, eu tremia todo de medo, a porta do quarto estava entreaberta, como não havia iluminação elétrica no sitio (o sitio era bem antigo, mesmo), minha mãe deixou uma lamparina no meio do corredor, isso fazia com que eu conseguia ver se alguém passava diante do meu quarto, quando percebi alguém andando em direção ao quarto dos meus pais, achei que fosse minha mãe, pulei da cama corri para o corredor, pois estava com medo e tinha um sofá velho no quarto dos meus pais eu achei que minha mãe deixaria eu dormir lá, já que esta seria nossa ultima noite naquele sitio velho e bizarro.
Assim que alcancei minha mãe no corredor eu a toquei pelo ombro, e tomei um susto enorme, não era a minha mãe, era uma outra mulher em estado de decomposição, no lugar de seus olhos, percebi apenas manchas de sangue, gritei e sai correndo em direção ao meu quarto, joguei-me em cima da cama e a figura monstruosa estava parada na porta do quarto olhando para mim, não me lembro de ter visto meu irmão, porém ouvi seu grito, chamando meu pai, quando olhei novamente em direção da porta, já não havia mais ninguém, segundos depois entraram meu pai e minha mãe no meu quarto, eu contei o que havia acontecido mas eles não se importaram muito, até o meu irmão dizer que havia visto alguém parado na porta do meu quarto, ele achou que fosse minha mãe, e a chamou, mas quando ela virou ele percebeu que não, ele viu que era uma mulher velha e feia com o rosto pálido que parecia que ela estava morta.
Parece que quando meu irmão contou essa história, meus pais perceberam que não era pesadelo que eu tive, pois nunca ouvi casos de pessoas que partilham seus pesadelos. Nós ficamos com aquela casa sinistra cerca de 3 anos, até que de tanto eu não mais aparecer por lá , meus pais resolveram vender o sitio.




´ Um caso estranho

Não sei se no momento eu contemplava as águas da enchente ou se pensava em outras épocas, quando uma boca com dentes de outro me interrompeu:
- Tenho ordem de prendê-lo como envolvido no crime da mala.
- Que mala? - indaguei ainda surpreso, como alguém que acabasse de descer de Marte ou de outra região qualquer.
- Siga-me que na delegacia tudo será esclarecido.
Diante do tom autoritário com que a boca com dentes de outro me falava, resolvi seguir o investigador. Atravessamos uma rua deserta, cruzamos uma praça cheia de crianças brincando, desembocamos num largo e por fim entramos num prédio baixo com aspecto de casa de comércio.
Quando menos esperava, fui empurrado para dentro de uma sala escura onde o delegado de plantão me recebeu com ar teatral:
- Então! Custou mas caiu nas mãos da justiça! Ninguém escapa da lei! Confesse, que é a única cousa inteligente que tem a fazer!
A princípio achei graça em tudo aquilo. Pensei mesmo que estava sendo vítima de uma brincadeira de mau gosto. Depois, diante da insistência do delegado, comecei a suar frio. Que sabia eu do crime da mala? É bem possível que alguém, parecido comigo, tivesse cometido o crime pelo qual me acusavam. Há tanta gente parecida no mundo. Ainda há tempos encontrei no bonde um cidadão tão parecido com Henry Fonda que fiquei abismado. Tinha até o jeito de sorrir do simpático artista. Por um pouco não chamei a atenção do cavalheiro para o fato. O próprio delegado, que me interrogava, tinha qualquer cousa de semelhante com o investigador que me havia dado voz de prisão. O verdadeiro culpado talvez se parecesse comigo. Não encontrava outra explicação para tudo aquilo. De súbito fui despertado pela boca com dentes de ouro, que me disse:
- Acompanhe-me.
Segui como um autômato o investigador que me fechou numa sala tão baixa que tive que me curvar para não bater com a cabeça no teto. Justamente no momento em que me curvei, dei com um morto estendido dentro de uma mala meio aberta. Recuei e fiz um grande esforço para não gritar. O morto parece que me acusava com os seus olhos parados, com os seus olhos que vinham de um outro mundo. Tive a impressão de que estava sendo vítima de uma alucinação. Os olhos do morto parece que se dilatavam cada vez mais.
Dominei-me a custo e debrucei-me sobre o morto para examinar melhor a sua fisionomia e não pude conter um grito: o morto era eu. Era eu que estava dentro da mala meio aberta...
"
Paulo Corrêa Lopes
(1898 - 1957 | Brasil)


15 julho, 2012

Viagem Astral


A experiência que passo a relatar ocorreu cerca de um ano após o falecimento do meu segundo marido, de quem eu sentia uma imensurável saudade e um intenso desejo de vê-lo, nem que fosse em sonho. Sou espírita e, portanto, sei que não sou médium vidente nem auditiva. Assim, não tinha esperanças de ver o seu espírito. O tipo de mediunidade que tenho é apenas a que me permite momentos de desdobramentos e, quando freqüentava sessões de mediúnicas, psicografava e chegava perceber a presença de espíritos, em minha mente, com clareza suficiente para descrever suas fisionomias, trajes e ambiente em que viviam. Como me assustavam esses fenômenos, preferi deixar de participar em tais reuniões.
Pelas minhas lembranças da infância e juventude, acredito que o fenômeno do desdobramento (ou viagem astral) aconteceu várias vezes, sem que eu tomasse consciência do que estava me acontecendo. A primeira vez que me veio a consciência de que foi numa tarde em que, deitada no assoalho da sala, tentava relaxar a coluna que estava dolorida. De repente, vi-me em um lugar desconhecido, muito bonito, arborizado como se fosse um imenso parque. Eu caminhava sobre uma espécie de passarela que separava o enorme parque ajardinado em duas partes. Do lado direito, o piso era recoberto com uma grama verde escuro e tinha árvores frondosas de uma espécies que nunca vira antes, da mesma forma que não reconheci as plantinhas floridas que compunham os canteiros situados do lado esquerdo. Eu me via de pés descalços, trajava uma roupa longa de tonalidade azul, de tecido leve com discreta transparência e sentia algo no meio das costas que me parecia uma trança longa (eu tenho os cabelos curtinhos). A passarela longa fazia uma curva para a esquerda. Curiosamente o material que a revestia era diferente de qualquer um que conhecia: eram lajotas quadradas, como se fossem feitas de vidro azulado, com uma luminosidade opaca linda. De início eu prestava atenção aos detalhes que descrevi, Quando levantei a vista para a frente foi que percebi a curva da passarela, as árvores que formavam um extenso bosque e, a esquerda do terreno, uma construção baixa, de cor rosa, de onde se podia ouvir ruídos de vozes. Mas, o que me chamou mais atenção foi a presença de um homem, de costas, trajando um terno cinza, de cabelos grisalhos na altura do ombro, que pintava numa tela, com moldura dourada, o busto de uma mulher, certamente de memória, pois não havia nenhuma modelo pousando.

Pude ver que havia pendurados nas árvores próximas a ele vários quadros pintados com a mesma imagem feminina que estava pintando, vestida com trajes do século XIX. O vestido era cor de melão, com mangas bufantes, ornada com a mesma renda que rodeava o decote, rematada com um arranjo de flores, igual ao que havia no chapeuzinho de palhinha, preso por uma fita vermelha, da qual esvoaçavam duas pontas do lado esquerdo. Era uma linda e jovem mulher. Do lado direito, estavam pendurados nas árvores, várias cópias de uma mesma fotografia que retratava um casal de meia idade, sorridentes e se olhando nos olhos: Era ele com os mesmos cabelos grisalhos e uma mulher de meia idade, bonita e feliz.
Emocionada, dei-me conta que aquele homem, que nem me estava vendo, era o meu falecido marido.. Nesse momento tentei apressar o passo para chegar perto dele e poder dar o abraço de despedida que sua morte súbita não ensejou. Fiquei ansiosa para falar com ele... Apressei mais o passo... Mas, de repente, uma espécie de campo de força, potente e invisível, impediu que eu prosseguisse. Por mais que eu tentasse, não conseguia atravessar aquela barreira invisível.
Contudo, estava próxima dele o suficiente para ver que estava acabando de pintar mais um retrato da mesma mulher jovem trajada à moda antiga.

Ele olhava para a tela enquanto com um pano branco na mão esquerda, limpava os 3 pinceis que usara, enquanto repetia o nome da mulher retratada, de forma bem audível e pausada, como quem acha o retrato tão exatamente igual à imagem guardada na memória, que a chama como se viva e acessível fosse: -“BIA... BIA... BIA...

A mulher de meia idade do quadro em que está com ele, e a mulher jovem vestida à moda antiga são a mesma pessoa em épocas diferentes: EU MESMA...   BIA era como ele me chamava...  




13 julho, 2012

O JUSTIFIICADO TEMOR DO SEPULCRO

Como a maioria das pessoas, o médico e escritor Pedro Nava, nascido em junho de 1903, não estava livre da preocupação de ser sepultado ainda com vida. Recomendou que só o enterrassem 24 horas depois de morto.
Talvez o caso acontecido com o ator e compositor António Maria. o tenham alertado. Autor de músicas de sucesso como “Ninguém me Ama” e “Se eu morresse amanhã”, António Maria faleceu aos 43 anos de um ataque cardíaco, segundo atestaram os médicos em seu atestado de óbito. Tempos depois, ao serem exumados os seus restos mortais, sua ossada foi encontrada em decúbito ventral, ficando evidente que fora enterrado vivo e se revirara na luta desesperada para sair dali. Pobre António Maria...
Outro caso impressionante aconteceu com José Cândido Pessoa de Melo, residente em São José de Mipibu (RN). Mecânico competente, que participou da construção da antiga ponte de ferro que ligava Natal ao povoado de Igapó, passando sobre o rio Potengi.
Em 1922, recebeu de seu primo, o Presidente Epitácio Pessoa, um convite, extensivo a D. Estefânia, sua esposa, para assistirem, no Rio de Janeiro, os festejos comemorativos do centenário da independência. 
As freqüentes crises de asma alérgica o impediram de viajar. Ninguém mais do que ele temia mais ser sepultado vivo. Esse temor vinha de um sonho do seu irmão. Nele, o seu pai, Joaquim Rafael Pessoa de Melo queixava-se de haver sido sepultado ainda com vida. Encontrava-se, dizia, de bruços, posição a que fora levado ao debater-se, consciente de sua desesperada situação.
Anos depois, o filho, com ansiosa expectativa, assistiu desenterrarem os restos mortais do pai, e viu, consternado, confirmar-se o sonho que tanto o preocupara. Seu pai estava de bruços, exatamente como lhe dissera no sonho.
Daí a sua obsessão, que não o abandonou, até falecer em 1926, às 9 horas da manhã de junho, aos 55 anos de idade. Cumprindo um insistente pedido do marido, D. Estefânia só permitiu o enterro no dia seguinte, no mesmo horário em que falecera. Para ser mais exato, o féretro só deixou a sua residência depois que o relógio da Matriz fez soar as 9 pancadas misturadas com os plangentes dobres de finados. Na verdade, permaneceu insepulto mais do que as 24 horas que tanto pedira.

Autor: José de Anchieta Ferreira. Histórias que não estão na história, RN-Editora 1998


12 julho, 2012

Um encontro assombroso e terrível


A cidade de Redenção da Serra, aqui bem perto de nós, é um local agradável e cheio de gente que gosta de contar casos. Dizem que tem este nome em homenagem ao fato de a cidade ter libertado seus escravos em 10 de fevereiro de 1888, três meses antes da abolição oficial dos escravos no Brasil e que foi assinada pela Princesa Isabel. Lembrei-me desta visita porque acabo de receber pelo correio o livro de Maurício Pereira “Causos de Assombramento em Quadrinhos”, muito bom, por sinal. Há alguns anos estive na cidade em busca de uma destas prosas boas e encontrei na parte velha da cidade, próximo à majestosa construção da antiga Igreja Matriz, o senhor Antônio Viana Prata, descendente de italianos, mais especificamente de Veneza, imigrantes que se instalaram na região. Seu Antônio Prata, como é conhecido, nasceu em 1920 e foi criado em Redenção da Serra. Acanhado e atento num primeiro momento, ele é o perfil do homem valeparaibano, só conta algo depois que tem uma certa confiança, e com razão.
Qualquer pessoa que precise de um fato ocorrido na cidade, procura por ele. E foi exatamente dele que escutei coisa tão interessante. Contou-me que, há muitos anos, trabalhava na fazenda Gramado onde retirava leite e lenha. Vinha de vez em quando para a cidade nova vender lenha e foi numa destas idas e vindas que se encontrou com a assombração de Alexandre Barreto.
Passava ele pela ponte da cidade, quando a assombração, magra, calçada com os dois pés numa mesma bota e soltando um brilho amarelo pela boca sorrindo horripilantemente, pulou em sua carroça. A assombração sacudiu tanto a carroça que ela caiu da ponte com seu Antônio e tudo mais que carregava, inclusive o cavalo.
Seu Antônio só foi encontrado e acudido no dia seguinte. Ainda viu a assombração mais algumas vezes e sempre que a via, a criatura arreganhava os dentes colocando para fora da boca um brilho amarelo. Segundo seu Antônio Prata, Alexandre Barreto era um fazendeiro muito genioso e o povo dizia que fizera muita ruindade na região. Quando o fazendeiro morreu, durante o velório, o povo que lá estava velando o corpo viu quando, dois homens de terno branco (que dizem na cidade, eram dois enviados do demônio) apareceram e retiraram o corpo do caixão e jogaram fora, levando-o ao desaparecimento. Para que ocorresse o enterro, cortaram o caule de uma bananeira, colocaram dentro do caixão e realizaram os rituais fúnebres.
Acredite quem queira, mas eu fiquei duas noites custando a dormir. 

Sônia Gabriel
Courier New 9 (Jornal Vale Mais, julho de 2010



O fantasma da noiva suicida...


As antigas fazendas de café do período imperial brasileiro eram muito opulentas e demonstravam todo o poder de seus donos, os Barões do Café. Homens ricos e poderosos tinham autoridade sobre seus negócios, seus escravos e suas famílias tanto quanto sobre suas terras. As casas eram construídas de modo a acolherem a família e os visitantes. Cômodos grandes e confortáveis eram decorados com mobília de madeira boa e objetos vindos da corte, no Rio de Janeiro, e da Europa. A Fazenda Coqueiros, em Bananal – SP, tinha até mesmo banheiro dentro de casa, cofre do tamanho de um quarto de dormir e organizado acesso à água. Os cômodos que, no entanto, chamam mais atenção são as alcovas.
Dentro de uma delas, há o fantasma de uma antiga moradora. Dizem que era uma moça que enlouquecera depois que o pai impediu seu casamento com o homem que amava para forçá-la a casar-se com um velho riquíssimo, proprietário de minas de ouro em Minas Gerais. Como ela não aceitava casar-se com tal noivo interessado em somar as fortunas das duas famílias, no dia do casamento, depois de vestida em um suntuoso vestido de noiva, com uma reluzente tiara de diamantes segurando a rica mantilha de renda,vinda da Espanha, cobrindo seus belos cabelos louros, o pai a fez ficar na alcova até a hora da cerimônia nupcial, na catedral da cidade. A jovem já estava habituada a ficar grande parte parte do tempo nesta acomodação.
As alcovas eram quartos sem janelas, preservava-se assim a pureza das moças de indesejáveis visitantes. Em algumas fazendas chegava-se a estratégia de serem trancadas apenas por fora, desta maneira fossem as jovens da casa ou os visitantes, principalmente tropeiros costumeiros, que pernoitassem, apenas na manhã seguinte poderiam sair, assim que o Barão mandasse abrir as portas. Para o conforto dos ocupantes, na alcova costumavam ter vasilhas com água, toalhas, urinóis e grades acima da porta para entrada de ar.
Passada uma meia hora, o pai veio buscar a filha para levá-la à Igreja onde se casaria. Ao abrir a porta da alcova, parou estarrecido e desesperado diante da tragédia que ali ocorrera: a noiva jazia em sua cama, fulminada pela forte dose de veneno que ingerira, preferindo a morte a casar-se contra a sua vontade. Ao lado do corpo, o vidro vazio de cianureto de potácio não deixava a menor dúvida de que a jovem praticara o suicídio. Em lugar da grande festa de casamento, a família teve o triste velório da bela jovem que enlouquecera devido a tirania paterna.
A partir desse dia, pessoas que habitam nas redondezas do casarão afirmam que já viram o fantasma da noiva caminhando pelos corredores do casarão ou na alcova que lhe servira de prisão.


07 julho, 2012

O desaparecimento inexplicável de Worson

No ano de 1873, no dia 3 de setembro, James aceitou o desafio de quebrar o recorde de velocidade (a pé) do percurso entre as cidades de Leamington e Coventri. Dois amigos então o acompanharam, a cavalo. Um deles, Hammerson Burns, levou sua câmera com ele e ia tirando fotos, enquanto Worson conversava alegremente com eles.
Segundo os amigos eles olharam para a frente por um breve instante quando ouviram um grito de agonia de Worson. Pensando que ele havia tropeçado, eles voltaram para ajudá-lo. Só que não encontraram nada nem ninguém. Worson havia simplesmente desaparecido. Burns até tirou fotos da estrada, que mostrava pegadas de Burns andando normalmente, depois como se ele havia tropeçado e depois mais nada, como se ele não houvesse mais tocado o chão. Eles chamaram a polícia, que levou os cães farejadores. Por algum motivo, os bichos não queriam se aproximar do local em que James havia caído. Worson nunca mais foi visto. Como explicar tal desaparecimento? Mistééééério!


06 julho, 2012

Um espectro de fogo

O navio holandês Palatine zarpou de Amsterdã em 1752, levando cerca de 300 imigrantes para a América. Após uma viagem terrivel, atormentada por tempestades, a embarcação teve um fim calamitoso por volta do Natal, ao largo da Ilha Block, na entrada do estreito de Long Island.

Segundo um relato, saqueadores de naufrágios usaram um sinal de luz para atrai-lo para as rochas, saquearam o navio depois atearam-lhe fogo. Os passageiros foram desembarcados, mas quando as chamas estavam consumindo o Palatine, um grito silenciou os saqueadores. Entre as chamas e a fumaça, viram uma mulher solitária e atormentada arrastando-se pelo convés incendiado.

Na época do Natal, um ano depois e nos anos seguintes, os moradores da ilha Block continuaram a assistir a volta do Palatine em chamas. Em 1869, um velho chamado Benjamin Corydon, que crescera no continente em frente a ilha, admitiu ter visto por oito ou nove ocasiões a nave espectral, com todas as velas içadas e em chamas, e que suas visitas haviam cessado quando morreu o último dos saqueadores que o tinham atraido para destruição. Mas talvez ele tenha falado cedo demais, em 1969 foi mais uma vez relatada a aparição do navio fantasmal em chamas.


O diagnóstico de morte, de Ambrose Bierce

'Eu não sou tão supersticioso quanto alguns de seus médicos - homens de ciência, como você o prazer de ser chamado ", disse Hawver, respondendo a uma acusação que não haviam sido feitas. "Alguns de vocês - apenas uns poucos, confesso - acredita na imortalidade da alma, e em aparições que você não têm a honestidade de chamar fantasmas. Eu não vou mais longe do que uma convicção de que a vida às vezes são vistas onde eles não são, mas têm sido - onde eles têm vivido tanto tempo, talvez tão intensamente, como ter deixado sua impressionar tudo sobre eles. Eu sei, de fato, que o ambiente de uma pessoa pode ser tão afetado por uma personalidade como a ceder, muito tempo depois, uma imagem de si mesmo aos olhos do outro. Sem dúvida, a personalidade que impressiona tem que ser o tipo certo de personalidade como os olhos percebendo que ser o tipo certo de olhos -. O Meu, por exemplo '
"Sim, o tipo certo de olhos, transmitindo sensações para o tipo errado de cérebro", disse Dr. Frayley, sorrindo.
"Obrigado, ninguém gosta de ter uma expectativa gratificada. Que é sobre a resposta que eu supostamente teria a civilidade para fazer.
"Perdoe-me. Mas você dizer que você sabe. Isso é um negócio bom para dizer, você não acha? Talvez você não se importe o problema de dizer como você aprendeu. "
"Você vai chamá-lo de uma alucinação", Hawver disse, "mas isso não importa." E ele contou a história.
"No verão passado eu fui, como você sabe, para passar o clima quente na cidade de Meridian. O parente em cuja casa eu tinha a intenção de permanecer estava doente, então eu procurei outros trimestres. Depois de alguma dificuldade consegui alugar uma casa vazia que tinha sido ocupada por um médico excêntrico do nome do Mannering, que tinha ido embora anos antes, ninguém sabia onde, nem mesmo seu agente. Ele construiu a casa e se tivesse vivido na mesma com um velho criado há cerca de dez anos. Sua prática, nunca muito grande, tinha depois de alguns anos foi dado inteiramente. Não só isso, mas ele retirou-se quase totalmente da vida social e tornou-se um recluso.
Foi-me dito pelo médico da aldeia, sobre a única pessoa com quem ele tinha quaisquer relações, que durante sua aposentadoria, ele dedicou-se a uma única linha de estudo, o resultado de que ele havia exposto em um livro, que não se elogiar, a aprovação de seus irmãos profissionais, que, de fato, o consideravam não inteiramente sã.
Eu não vi o livro e não pode agora recordar o título dele, mas me disseram que ele expôs uma teoria bastante surpreendente. Ele sustentava que era possível no caso de muitos uma pessoa de boa saúde para prever a sua morte com precisão, vários meses de antecedência do evento. O limite, eu acho, era de dezoito meses.
Havia contos locais de ele ter exercido o seu poder de prognóstico, ou talvez você diria diagnóstico, e dizia-se que em todos os casos a pessoa cujos amigos que ele tinha avisado tinha morrido de repente na hora marcada, e de nenhuma causa atribuível. Tudo isso, no entanto, não tem nada a ver com o que tenho a dizer, eu pensei que poderia divertir um médico.
"A casa foi mobiliada, assim como ele tinha vivido nela. Era uma casa bastante sombria para quem não era nem recluso nem um estudante, e acho que deu um pouco do seu personagem para mim - talvez alguns do caráter de seu antigo ocupante doente, pois sempre senti nele uma certa melancolia que não estava em minha disposição natural, nem, penso eu, devido à solidão.
Eu não tinha servos, que dormiam na casa, mas sempre fui, como vocês sabem, em vez Amante de minha própria sociedade, sendo muito viciado em leitura, apesar de pouco para estudar. Seja qual for a causa, o efeito foi o desânimo e uma sensação de mal iminente, e isso era especialmente verdade no estudo do Dr. Mannering, apesar de que o quarto foi o mais leve e mais arejada na casa.
O retrato do doutor, em tamanho natural em óleo, pendurado na sala, me parecia completamente para dominá-la. Não havia nada de incomum na imagem, o homem era, evidentemente, de boa aparência, cerca de 50 anos de idade, com o ferro-cabelo grisalho, um rosto bem barbeado e olhos escuros e graves. Algo na imagem sempre atraiu e prendeu minha atenção. A aparência do homem tornou-se familiar para mim, e sim "assombrando" me.
"Uma noite eu estava passando por esta sala para o meu quarto, com uma lâmpada - não há gás em Meridian. Parei como de costume diante do retrato, que parecia à luz do lampião ter uma expressão nova, não facilmente identificada, mas distintamente estranha. Movi a lâmpada de um lado para o outro e observados os efeitos da luz alterada, eram interessantes, mas não me perturbaram. Quando assim engajado senti um impulso para virar. Como eu fiz assim que eu vi um homem atravessando a sala diretamente para mim! Assim que ele chegou perto o suficiente para a luz da lamparina iluminar o seu rosto, vi que era o Dr. Mannering-se, era como se o retrato estivesse andando!
"Eu imploro seu perdão", eu disse, um pouco fria ", mas se você bateu eu não ouvi."
"Ele passou por mim, dentro do comprimento de um braço, levantou o dedo indicador direito, como no aviso, e sem uma palavra passou para fora da sala, embora eu observasse a sua saída não mais do que eu tinha observado sua entrada.
”Claro, eu não preciso dizer-lhe que era isso que você vai chamar uma alucinação e eu chamo de uma aparição. Aquele quarto tinha apenas duas portas, uma das quais estava fechada, a outra leva para um quarto, de onde não havia saída. Meu sentimento em perceber isto não é uma parte importante do incidente.
"Sem dúvida, isso parece-lhe uma" história de fantasma "muito comum - um construído sobre as linhas regulares estabelecidos pelos velhos mestres da arte. Se assim fosse eu não deveria ter relacionado, mesmo que fosse verdade. O homem não estava morto, eu o conheci um dia na Union Street. Ele passou por mim no meio da multidão. "
Hawver terminou sua história e os dois homens ficaram em silêncio. Dr. Frayley distraidamente batia na mesa com os dedos.
"Ele disse alguma coisa?" , ele perguntou - "'qualquer coisa, que levou você a inferir que ele não estava morto?'
Hawver olhou e não respondeu.
"Talvez", continuou Frayley ', ele fez um sinal, um gesto - levantou um dedo, como no aviso. É um truque que ele tinha - um hábito ao dizer algo sério -. Anunciando o resultado de um diagnóstico, por exemplo '
"Sim, ele fez - assim como sua aparição tinha feito. Mas Deus, que bom! você já o conhece? "
Hawver foi aparentemente levado a crescente nervoso.
"Eu o conhecia. Eu li seu livro, assim como cada médico um dia. É um dos mais marcantes e importantes contribuições do século, à ciência médica. Sim, eu o conheci, eu o acompanhava em uma doença há três anos. Ele morreu. "
Hawver pulou da cadeira, manifestamente perturbado. Ele caminhou para a frente e para trás toda a sala, então se aproximou de seu amigo, e com uma voz não totalmente estável, disse: "Doutor, tem alguma coisa a dizer para mim - como um médico? '
"Não, Hawver; você é o mais saudável homem que já conheci. Como um amigo que eu aconselho você a ir para seu quarto. Você toca o violino como um anjo. Vá tocá-lo; tocar algo leve e animado. Deixa este maldito mau pensamento fora de sua mente. "
O Hawver dia seguinte foi encontrado morto em seu quarto, o violino em seu pescoço, o arco na corda, ao seu lado sua música preferida. Falecera antes de abrir a partitura do Funeral de Chopin.


04 julho, 2012

Bárbara, de Murilo Rubião.

"O homem que se extraviar do caminho da doutrina, terá por morada a assem
bléia dos gigante." - Provérbios, XXI; 16.

"Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava. Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos. Em troca de tão constante dedicação, dela recebi frouxa ternura e pedidos que se renovavam continuamente. Não os retive todos na memória, preocupado em acompanhar o crescimento do seu corpo, se avolumando à medida que se ampliava sua ambição. Se ao menos ela desviasse para mim parte do carinho dispensado às coisas que eu lhe dava, ou não engordasse tanto, pouco me teriam importado os sacrifícios que fiz para lhe contentar a mórbida mania.
Quase da mesma idade, fomos companheiros inseparáveis na meninice, namorados, noivos e, um dia, nos casamos. Ou melhor, agora posso confessar que não passamos de simples companheiros. Enquanto me perdurou a natural inconsequência da infância, não sofri com as suas esquisitices. Bábara era menina franzina e não fazia mal que adquirisse formas mais amplas. Assim pensando, muito tombo levei, subindo a árvores, onde os olhos ávidos da minha companheira descobriam frutas sem sabor ou ninhos de passarinho. Apanhei também algumas surras de meninos aos quais era obrigado agredir unicamente para realizar um desejo de Bárbara. E se retornava com o rosto ferido, maior se lhe tornava o contentamento. Segurava-me a cabeça entre as mãos e sentia-se feliz em acariciar-me a face intumescida, como se as equimoses fossem um presente que eu lhe tivesse dado.
Às vezes relutava em aquiescer às suas exigências, vendo-a engordar incessantemente. Entretanto, não durava muito a minha indecisão. Vencia-me a insistência do seu olhar, que trasformava os mais insignificantes pedidos numa ordem formal. (Que ternura lhe vinha aos olhos, que ar convincente o dela ao me fazer tão extravagantes solicitações!) Houve tempo - sim, houve - em que me fiz duro e ameacei abandoná-la ao primeiro pedido que recebesse. Até certo ponto, minha advertência produziu o efeito desejado. Bárbara se refugiou num mutismo agressivo e se recusava a comer ou conversar comigo. Fugia à minha presença, escondendo-se no quintal e contaminava o ambiente com uma tristeza que me angustiava.


Definhava-lhe o corpo, enquanto lhe crescia assustadoramente o ventre. Desconfiado de que a ausência de pedidos em minha mulher poderia favorecer uma nova espécie de fenômeno, apavorei-me. O médico me tranquilizou. Aquela barriga imensa prenunciava apenas um filho. Ingênuas esperanças fizeram-me acreditar que o nascimento da criança eliminasse de vez as estranhas manias de Bárbara. E suspeitando que a sua magreza e palidez fossem prenúncio de grave moléstia, tive medo que, adoecendo, lhe morresse o filho no ventre. Antes que tal acontecesse, lhe implorei que pedisse algo. Pediu o oceano. Não fiz nenhuma objeção e embarquei no mesmo dia, iniciando longa viagem ao liltoral. Mas, frente ao mar, atemorizei-me com o seu tamanho. Tive receio de que a minha esposa viesse a engordar em proporção ao pedido, e lhe trouxe somente uma pequena garrafa contendo água do oceano.
No regresso, quis desculpar meu procedimento, porém ela não me prestou atenção. Sofregamente, tomou-me o vidro das mãos e ficou a olhar, maravilhada, o líquido que ele continha. Não mais o largou. Dormia com a garrafinha entre os braços e, quando acordada, colocava-o contra a luz, provava um pouco da água. Entrementes, engordava. Momentaneamente despreocupei-me da exagerada gordura de Bárbara. As minhas apreensões voltavam-se agora para o seu ventre a dilatar-se de forma assustadora. A tal extremo se lhe dilatou que, apesar da compacta massa de banha que lhe cobria o corpo, ela ficava escondida por trás de colossal barriga. Receoso de que dali saísse um gigante, imaginava como seria terrível viver ao lado de uma mulher gordíssima e um filho monstruoso, que poderia ainda herdar da mãe a obsessão de pedir as coisas. Para meu desapontamento, nasceu um ser raquítico e feio, pesando um quilo. Desde os primeiros instantes, Bárbara o repeliu. Não por ser miúdo e disforme, mas apenas por não o ter encomendado. A insensibilidade da mãe, indiferente ao pranto e à fome do menino, obrigou-me a criá-lo no colo.
Enquanto ele chorava por alimento, ela se negava a entregar-lhe os seios volumosos, e cheios de leite. Quando Bárbara se cansou da água do mar, pediu-me um baobá, plantado no terreno ao lado do nosso. De madrugada, após certificar-me de que o garoto dormia tranquilamente, pulei o muro divisório com o quintal do vizinho e arranquei um galho da árvore. Ao regressar a casa, não esperei que amanhecesse par entregar o presente à minha mulher. Acordei-a, chamando baixinho pelo seu nome. Abriu os olhos, sorridente, adivinhando o motivo por que fora acordada: - Onde esta? - Aqui. E lhe exibi a mão, que trazia oculta nas costas. - Idiota! gritou, cuspindo no meu rosto. - Não lhe pedi um galho - E virou para o canto, sem me dar tempo de explicar que o baobá era demasiado frondoso, medindo cerca de dez metros de altura. Dias depois, como o dono do imóvel recusava-se vender a árvore separadamente, tive que adquirir toda a propriedade por um preço exorbitante. Fechado o negócio, contratei o serviço de alguns homens que, munidos de picaretas e de um guindaste, arrancaram o baobá do solo e o estenderam no chão. Feliz e saltitante, lembrando uma colegial, Bárbara passava as horas passeando sobre o grosso tronco. Nele também desenhava figuras, escrevia nomes. Encontrei o meu debaixo de um coração, o que muito me comoveu. Este foi, no entanto, o único gesto de carinho que dela recebi. Alheia à gratidão com que eu recebera a sua lembrança, assistiu ao murchar das folhas e, ao ver seco o baobá, desinteressou-se dele.
excentricidades. Afetuosamente, chegou-se para mim, uma tarde, e me alisou os cabelos. Apanhado de surpresa, não atinei de imediato com o motivo do seu procedimento. Ela mesmo se encarregou de mostrar a razão: - Seria tão feliz, se possuísse um navio! - Mas ficaremos pobres, querida. Não teremos com que comprar alimentos e o garoto morrerá de fome. - Não importa o garoto, teremos um navio, que é a coisa mais bonita do mundo. Irritado, não pude achar graça nas suas palavras. Como poderia saber da beleza de um barco, se nunca tinha visto um e se conhecia o mar somente através de uma garrafa?! Contive a raiva e novamente embarquei para o litoral.
Dentre os transatlânticos ancorados no porto, escolhi o maior. Mandei que o desmontassem e o fiz transportar à nossa cidade. Voltava desolado. No último carro de uma das numerosas composições que conduziam partes do navio, meu filho olhava-me inquieto, procurando compreender a razão de tantos e inúteis apitos de trem. Bárbara, avisada por telegrama, esperava-nos na gare da estação. Recebeu-nos alegremente e até dirigiu um gracejo ao pequeno. Numa área extensa, formada por vários lotes, Bárbara acompanhou os menores detalhes da montagem da nave. Eu permaneci sentado no chão, aborrecido e triste. Ora olhava o menino, que talvez nunca chegasse a caminhar com as suas perninhas, ora o corpo de minha mulher que, de tão gordo, vários homens, dando as mãos, uns aos outros, não conseguiriam abraçá-lo. Montado o barco, ela se transferiu para lá e não mais desceu à terra. Passava os dias e as noites no convés, inteiramente abstraída de tudo que não se relacionasse com a nau.
O dinheiro escasso, desde a compra do navio, logo se esgotou. Veio a fome, o guri esperneava, rolava na relva, enchia a boca de terra. Já não me tocava tanto o choro de meu filho. Trazia os olhos dirigidos para minha esposa, esperando que emagrecesse à falta de alimentação. Não emagreceu. Pelo contrário, adquiriu mais algumas dezenas de quilos. A sua excessiva obesidade não lhe permitia entrar nos beliches e os seus passeios se limitavam ao tombadilho, onde se locomovia com dificuldade. Eu ficava junto ao menino e, se conseguia burlar a vigilância de minha mulher, roubava pedaços de madeira ou ferro do transatlântico e trocava-os por alimento. Vi Bárbara, uma noite, olhando fixamente o céu. Quando descobri que dirigia os olhos para a lua, larguei o garoto no chão e subi depressa até o lugar em que ela se encontrava. Procurei, com os melhores argumentos, desviar-lhe a atenção. Em seguida, percebendo a inutilidade das minhas palavras, tentei puxá-la pelos braços. Também não adiantou. O seu corpo era pesado demais para que eu conseguisse arrastá-lo. Desorientado, sem saber como proceder, encostei-me à amurada. Não lhe vira antes tão grave o rosto, tão fixo o olhar. Aquele seria o derradeiro pedido. Esperei que o fizesse. Ninguém mais a conteria. Mas, ao cabo de alguns minutos, respirei aliviado. Não pediu a lua, porém uma minúscula estrela, quase invisível a seu lado. Fui buscá-la."
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Murilo Rubião. "Bárbara". In.: O Pirotécnico Zacarias. Ed. Ática, Brasil.

A Floresta em sua Casa, de Maria Judite de Carvalho


Pintava a lindas cores como um velho artista do passado, que se chamava Douanier Rousseau; simplesmente, os seus bichos não eram ingênuos nem agressivos, mas perigosos. Não terríveis, não assustadores: perigosos, embora um pouco engraçados também. Espreitavam ou estavam alerta ou resfolegavam ao de leve (era como se resfolegassem) ao preparar o salto. Havia sempre folhagem a dissimulá-los, a mantê-los numa quase ilegalidade graciosa, bonitas flores bojudas, de carne rosada, a tornar por assim dizer impossível, a ridicularizar, a sua ferocidade.
Não se via o tigre a atacar o búfalo, mordendo-o já, começando a dilacerá-lo. Não. O tigre, quando tigre havia, estava meio escondido por uma das tais flores, maior do que a sua cabeça. E sentia-se que ele já avistara a presa, que a espiava, que só estava à espera da altura mais conveniente, para agir. Era um jovem leão ágil, esse a que o pintor dava os últimos retoques. Um jovem leão já sabedor, a olhar bem de frente para quem o olhava. Tinha uma grande juba redonda e escura de que só se via metade, e um corpo amarelado que à primeira vista parecia exíguo. Exíguo porque atrás de si havia um tronco de árvore em cuja largura caberiam sete leões e que servia de pano de fundo a uma amálgama de lianas, de longas folhas gordas, carnosas, de arbustos que se erguiam do chão ou que tombavam de cima, em cascata. A juba estava semi-escondida por uma dessas folhas, grande e lobada, quase vermelha, quase animal.
«Era assim a floresta?» perguntavam com um arrepio breve e muita admiração as pessoas que visitavam o atelier do pintor. Ele abria os braços, punha-se a rir. Como havia de saber? Há séculos que os desertos e as grandes florestas e os densos bosques pintalgados de sol tinham desaparecido da face de um pequeno mundo superpovoado, porque a terra era pouca para edificar e para cultivar. Por isso se cultivavam também os oceanos. Nas antigas florestas da Amazónia havia deslumbrantes cidades de vidro, aeroportos imensos, belas auto-estradas. O mesmo nas de África e da Ásia, o mesmo nas do resto do mundo. E os animais, os poucos que tinham sobrevivido ao arrancar das raízes, encontravam-se em três ou quatro pequenos jardins de aclimatação.
Aquelas estranhas florestas eram, no entanto, as que ele imaginava. Velhas, luxuriantes florestas de há séculos, com uma vida que vinha do princípio das coisas. Florestas com túrgidas flores que nasciam, cresciam e morriam em poucas horas, que, por assim dizer, renasciam e onde o perigo espreitava por detrás de cada folha.
Os seus quadros eram muito procurados porque eram decorativos, tinham belas cores e nunca acabavam de ser vistos. Ali, estava o leão, mas, olhando melhor, procurando, avistavam-se as três corças, todas encolhidas, como que receosas, a cobra a rastejar, e mais além, confundindo-se com as lianas, a aranha carangueja. Havia também ângulos dos quais se podiam ver animaizinhos escondidos, aqui e além. Um, dois, cinco, mais?
Era um herdeiro de Rousseau e um charadista. Mas as charadas tinham desaparecido com os almanaques. Um pintor portanto original, criador, muito apreciado. «Tenha a floresta em casa» era o seu slogan publicitário. E as pessoas gostavam de ter em casa um pedaço dessa floresta, era refrescante. A maioria delas nunca tinha visto um leão nem um tigre a não ser nos livros de zoologia, porque os jardins onde havia animais eram poucos e os próprios animais tendiam a desaparecer, como se o mundo actual já não lhes pertencesse. As fêmeas procriavam com dificuldade, algumas espécies estavam praticamente extintas, outras tinham mesmo desaparecido por completo. Assim, já não havia elefantes, nem ursos nem leopardos.

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O casal que comprou ao pintor a sua última grande tela, a do leão, tinha dois filhos pequenos, um de cinco, outro de sete anos, e as crianças andaram semanas de volta do quadro, até que lhe descobriram todos os segredos, os bichos semi-escondidos, espreitadores, prestes a devorar ou prestes a ser devorados. Era um jogo apaixonante.
«Ainda há mais», dizia um.
«Aposto que não», respondia o outro.
E em primeiro plano, fitando-os com serenidade um pouco trocista, o leão da juba redonda, grandes, plácidos olhos amarelos, corpo inquieto. As crianças ouviram dizer que no jornal viera a notícia da morte, no jardim de Choa, junto ao Nilo Azul, do último leão do mundo. E isso pareceu-lhes apaixonante, era como se estivessem, também eles, à beira de um precipício e lá em baixo fosse a outra era, aquela em que não haveria leões.
«Nós temos leão», disse o mais pequeno quando estavam deitados e de luz apagada.
«É de pano pintado.»
«O resto é de pano pintado. Ele não.»
«És parvo.»
«Os olhos dele são olhos a sério. É um leão. E deve ter fome," Sentou-se na cama. «O que comerá um leão?»
«Não é fácil alimentar um leão», disse o mais velho com paciência. «Não é nada fácil".
«Não deve ser. O que comem os leões?»
«Não sei. Talvez outros animais, os mais saborosos. Gente, quando têm muita fome. Agora vou dormir, tenho sono.» No dia seguinte continuaram a sua ronda entusiástica em volta do quadro. E o mais velho estacou de repente:
«Gilles!» chamou em voz baixa; «Quantas são as corças?» «Três», respondeu Gilles sem hesitar.
«Também me parecia», declarou com fingido à-vontade. «Também me parecia que elas eram três.
Mas hoje, agora são duas!»
«Não pode ser!»
Podia. O coração de Gilles batia com intensidade. «Vamos dizer à mãe? Vamos já dizer à mãe?»
«Não», disse o mais velho. «Não. É um segredo. Jura que não contas a ninguém. É um segredo, ouviste? Como... descobrir um tesouro. Anda, jura.»
«É um segredo. Juro que não conto a ninguém».
«Pronto».
Gilles levou o dia a passear diante do quadro, e o velho leão a fitá-lo com os seus tranquilos olhos amarelos. Alex, o irmão mais velho, parecia haver-se desinteressado e olhava os carros que passavam pela estrada, a poucos metros. Olhava-os como quem sonha. Como quem pensa. Como quem procura?
No dia seguinte só havia uma corça e no outro algumas folhas haviam preenchido o lugar, lá longe, onde elas tinham estado, quase escondidas, mas não totalmente, pelo enorme tronco da árvore. Durante dois dias não houve modificação; o jovem rei digeria. Mas depois desapareceu um pequeno macaco risonho. Restavam a cobra e a aranha. O leão parecia não se decidir.
«Olha para ele, Alex».
«O que tem?»
«Os olhos dele. Não sei. Tenho medo».
«Medo de quê? És parvo. És um miúdo, é o que tu és. Medo de quê?»
De quê? Não sabia. Mas medo. Queria ir deitar-se, não olhar mais para os olhos amarelos, tão brilhantes, não sentir mais o peso daquele segredo.
Na manhã seguinte a mãe sacudiu-o com força: «O Alex? Onde está o Alex?» Sabia lá! Mas levantou-se porque todos procuravam, faziam muito barulho, a mãe chorava, o pai dava gritos, ameaçava toda a gente, nunca o tinha visto assim, parecia doido. E ele soube então - e viu - que a roupa da cama do irmão estava dilacerada, como se a tivessem cortado à navalha, e que havia sangue pelo chão. A polícia dentro de casa. Dois vagabundos presos e nesse mesmo dia confessavam o crime, ou melhor, não tinham reagido bem ao detector de mentiras. Culpados. Condenados decerto a prisão perpétua.
«Jura que não contas a ninguém, É um segredo, ouviste? Como descobrir um tesouro. Anda, jura.» «É um segredo. Juro que não conto a ninguém».
Uma noite, a mãe. E então o pai preso, os vagabundos libertos. O detector funcionara mal, todas as máquinas podem avariar-se, não é assim? Era estranho, mas Gilles ficou contente por o pai ter sido preso. E por os tios terem chegado, todos de luto, a fim de tomarem conta dele, pobre menino de cinco anos só no mundo. Fecharam portas e janelas, e levaram a chave e Gilles também, para uma cidade distante onde tinham uma casa modesta, sem quadros. Quiseram que o menino esquecesse o passado; ele, porém, recusou-se a isso. Terminantemente. Era, de resto, uma recordação tão estranha que, com o decorrer dos anos e as palavras da tia, acabou por a julgar um sonho mau mas apaixonante.
Muito tempo depois, já homem, já casado, voltou ali. Meteu a velha chave na fechadura, abriu a porta que o tempo emperrara. Um cheiro estranho a bafio. Seria mesmo a bafio? Entrou devagar, foi entrando, e a primeira porta que abriu foi a da sala e a primeira coisa que olhou foi a tela. Lá estava o leão com o seu ar caricatural e perigoso, e as corças e o macaco, e Gilles teve então de acreditar na tia que durante anos e anos lhe dissera que ele fora uma criança demasiado imaginativa. O pai tinha simplesmente enlouquecido e morto primeiro Alex, depois a mãe. Os corpos, assegurava ela, tinham sido encontrados mais tarde num barranco. Agora Gilles, ali em frente da tela, já não tinha razão para duvidar da tia nem dos médicos que haviam internado seu pai no manicómio. Mas sentia-se profundamente decepcionado e arrependido de ter vindo.

Autora: Maria Judite de Carvalho. Os Idólatras. Lisboa: Seara Nova, 1975.

Imagem: Foto de Maria Judite de Carvalho. (Arquivo Google).



02 julho, 2012

Um Caso Estranho, de Paulo Corrêa Lopes


Não sei se no momento eu contemplava as águas da enchente ou se pensava em outras épocas, quando uma boca com dentes de outro me interrompeu:
- Tenho ordem de prendê-lo como envolvido no crime da mala.
- Que mala? - indaguei ainda surpreso, como alguém que acabasse de descer de Marte ou de outra região qualquer.
- Siga-me que na delegacia tudo será esclarecido.
Diante do tom autoritário com que a boca com dentes de outro me falava, resolvi seguir o investigador. Atravessamos uma rua deserta, cruzamos uma praça cheia de crianças brincando, desembocamos num largo e por fim entramos num prédio baixo com aspecto de casa de comércio.
Quando menos esperava, fui empurrado para dentro de uma sala escura onde o delegado de plantão me recebeu com ar teatral:
- Então! Custou mas caiu nas mãos da justiça! Ninguém escapa da lei! Confesse, que é a única cousa inteligente que tem a fazer!
A princípio achei graça em tudo aquilo. Pensei mesmo que estava sendo vítima de uma brincadeira de mau gosto. Depois, diante da insistência do delegado, comecei a suar frio. Que sabia eu do crime da mala? É bem possível que alguém, parecido comigo, tivesse cometido o crime pelo qual me acusavam. Há tanta gente parecida no mundo. Ainda há tempos encontrei no bonde um cidadão tão parecido com Henry Fonda que fiquei abismado. Tinha até o jeito de sorrir do simpático artista. Por um pouco não chamei a atenção do cavalheiro para o fato. O próprio delegado, que me interrogava, tinha qualquer cousa de semelhante com o investigador que me havia dado voz de prisão. O verdadeiro culpado talvez se parecesse comigo. Não encontrava outra explicação para tudo aquilo. De súbito fui despertado pela boca com dentes de ouro, que me disse:
- Acompanhe-me.
Segui como um autômato o investigador que me fechou numa sala tão baixa que tive que me curvar para não bater com a cabeça no teto. Justamente no momento em que me curvei, dei com um morto estendido dentro de uma mala meio aberta. Recuei e fiz um grande esforço para não gritar. O morto parece que me acusava com os seus olhos parados, com os seus olhos que vinham de um outro mundo. Tive a impressão de que estava sendo vítima de uma alucinação. Os olhos do morto parece que se dilatavam cada vez mais.
Dominei-me a custo de debrucei-me sobre o morto para examinar melhor a sua fisionomia e não pude conter um grito: o morto era eu. Era eu que estava dentro da mala meio aberta...

Paulo Corrêa Lopes
(1898 - 1957 | Brasil)