[Valid RSS] [Valid RSS] Lendas Artes e Literatura Góticas: Abril 2016

Seja Bem Vindos!

21 abril, 2016

O Rei e suas três Filhas – conto de Horace Walpolle


Havia outrora um rei que tinha três filhas – ou melhor, ele teria três, se tivesse tido mais uma; porém, por um motivo ou por outro, a mais velha nunca havia nascido. Ela era extremamente bela, muito inteligente e falava francês com perfeição, como afirmam os autores daquele período, ainda que nenhum deles pudesse nem ao menos fingir que ela tivesse jamais existido. O que se sabe com certeza é que as outras duas princesas estavam bem longe de serem 
belas; a segunda tinha um forte sotaque de Yorkshire e a mais nova tinha péssimos dentes e uma perna só, o que fazia com que ela dançasse muito mal. 
Como não era provável que o monarca viesse a ter outros filhos, já que tinha oitenta e sete anos, dois meses e treze dias de idade quando a rainha morreu, os súditos estavam muito ansiosos para que as princesas se casassem. Havia, no entanto, um grande obstáculo para que isso acontecesse, ainda que fosse muito importante para a paz do reino. O rei insistia que a filha mais velha deveria se casar primeiro, e como tal pessoa não existia, era muito difícil arranjar um marido apropriado para ela. Todos os cortesãos aprovavam a resolução de sua majestade; porém, como mesmo entre os melhores príncipes sempre há um grande número de descontentes, a nação estava dividida em diferentes facções. Os queixosos ou patriotas insistiam que a segunda princesa era a mais velha, e que deveria ser declarada a herdeira aparente do trono. Muitos panfletos eram escritos contra ou a favor, porém o partido ministerial deu a entender que o argumento do chanceler era irrefutável: este afirmava que a segunda princesa não poderia ser a mais velha, já que nenhuma princesa real jamais possuíra sotaque de Yorkshire. Umas poucas pessoas que apoiavam a princesa mais nova tentavam defender seu pleito ao argumentar que as pretensões da jovem alteza à coroa seriam as mais justas, pois como não havia uma princesa mais velha, e como a segunda deveria ser a primeira – já que não havia primeira – e, como ela não poderia ser a segunda se era a primeira, e como o chanceler havia provado que ela não poderia ser a primeira, ficava extremamente claro aos olhos da lei que ela não poderia ser alguém de maneira alguma; e que, portanto, a consequência lógica que se segue – é óbvio – é que a mais nova deveria ser a primogênita, já que não havia outra irmã mais velha. 
Incontáveis animosidades e intrigas se originaram desses diferentes títulos; e cada facção buscava se fortalecer através de alianças com estrangeiros. O partido da corte, não fazendo objeção às conexões, era o mais conectado de todos, e explicava seu apego às ligações pela ausência de alicerces em seus princípios. O clero em geral era devotado à primeira filha. Os médicos abraçaram a causa da segunda e os advogados apoiaram a terceira, ou seja, a facção da princesa mais nova, porque parecia a mais apropriada para justificar litígios duvidosos e infindáveis. 
Enquanto a nação mergulhava nessa situação perturbadora, lá chegou o príncipe de Quifferiquimini, que teria sido o mais perfeito herói daquela época se não estivesse morto, não falasse qualquer língua senão o egípcio e não tivesse três pernas. Não obstante esses defeitos, os olhos da nação inteira imediatamente se voltaram para ele, e todos os partidos desejaram vê-lo casado com a princesa cuja causa eles advogavam. 
O velho rei recepcionou-o com todas as mais insignes honrarias; o senado homenageou-o com os mais insinceros discursos; as princesas ficaram tão encantadas com ele que se tornaram adversárias ainda mais ferozes; as damas da corte e os cozinheiros inventaram mais de mil novas modas inspiradas no príncipe – tudo deveria ser feito à la Quifferiquimini. Tanto homens quanto mulheres abandonaram as maquiagens rosadas e adotaram o pó de talco para parecerem cadavéricos; suas roupas foram bordadas com hieróglifos e com os mais distorcidos caracteres que puderam descobrir nas antiguidades egípcias – e tiveram que se dar por satisfeitos com esses ideogramas, já que era impossível aprender uma língua que já estava perdida. E todas as mesas, cadeiras, bancos, armários e sofás passaram a ser feitos apenas com três pernas; os sofás, entretanto, logo saíram de moda por serem muito inconvenientes. 
O príncipe que, desde a sua morte, possuía uma constituição fraca, ficou um pouco cansado com esse excesso de atenções, e muitas vezes desejava estar em casa, descansando em seu caixão. Porém, a maior de todas as dificuldades era se livrar da princesa mais jovem, que saltitava atrás dele onde quer que ele estivesse. Ela estava muito admirada de suas três pernas; com a modéstia de quem só tem uma, demonstrava grande interesse em saber como as três pernas do príncipe funcionavam. Por ser o homem mais bem-humorado do mundo, lhe doía muito o coração quando, num momento de irritação, ele acabava por dizer uma palavra rude. 
Quando isso acontecia, ela desatava um pranto agoniado, que a deixava tão excessivamente feia que era ainda mais impossível para o príncipe ser gentil com ela. Ele não demonstrava uma inclinação maior pela segunda princesa; na verdade, foi a mais velha que conquistou suas afeições. 
E tão violentamente sua paixão cresceu numa manhã de terça-feira que, abandonando todas as considerações prudentes – pois havia um sem número de razões que deveriam determinar sua escolha em favor de uma das outras irmãs – o príncipe procurou o velho rei, revelou sua paixão e pediu a mão da filha mais velha em casamento. Nada poderia se igualar à alegria do velho monarca, cujo único desejo era viver para ver a consagração dessa união. Atirando seus braços ao redor do esquelético pescoço do príncipe e molhando com mornas lágrimas suas faces encovadas, o rei concordou com o pedido e acrescentou que iria imediatamente abdicar de sua coroa em favor do príncipe e de sua filha favorita. Sou forçado por falta de espaço a deixar de lado muitas circunstâncias que iriam aumentar grandemente a beleza desta história, e peço desculpas por ainda aumentar a impaciência do leitor ao informá-lo que, não obstante a ansiedade do velho rei e o juvenil ardor do príncipe, as núpcias tiveram que ser adiadas. O arcebispo declarou que era fundamentalmente necessário que obtivessema permissão do papa, pois as partes possuíam laços de parentesco em grau proibido; uma mulher que nunca foi e um homem que tinha sido eram considerados primos de primeiro grau aos olhos das leis canônicas. 
Em seguida, surgiu uma nova dificuldade. A religião dos quifferiquiminianos era diametralmente oposta à crença dos papistas. Os primeiros não acreditavam em nada a não ser na graça; e eles possuíam sua própria autoridade eclesiástica, que acreditava ser o detentor de toda a graça existente e que, através da concessão dessa citada graça, poderia obrigar a ser tudo o que nunca tinha sido e poderia evitar que tudo que tinha sido pudesse tornar a ser. 
- Não temos nada a fazer, disse o príncipe ao rei, senão mandar um solene embaixador até o sumo sacerdote provedor da graça, com a oferenda de cem mil milhões de lingotes. Ele fará com que sua encantadora não-filha venha a ser, e suspenderá a minha morte anterior, e então não haverá necessidade de pedir a permissão daquele velho bobo de Roma. 
- Como? Oh, ímpio e ateísta saco de ossos! gritou o velho rei. Como ousa profanar nossa santa religião? Você não terá a minha filha, seu esqueleto de três pernas! Vá, se enterre e se dane, como merece; pois, como está morto, já não pode mais se redimir. Prefiro entregar minha filha a um babuíno, que tem uma perna a mais do que você, a uni-la a tão desprezível cadáver! 
- É melhor você casar sua infanta de uma perna com o babuíno, respondeu o príncipe, eles combinam mais. Mesmo sendo um cadáver, sou melhor do que nada; e quem mais aceitaria se casar com sua não-filha, senão um defunto? Em relação à minha religião, eu vivi e morri nela, e não tenho o poder de mudar isso agora – porém, de sua parte... 
Nesse momento, uma gritaria interrompeu esse interessante diálogo. O capitão da guarda entrou correndo na saleta real para avisar o monarca que a segunda princesa, como vingança pelo desinteresse do príncipe, havia dado sua mão em casamento a um salineiro, que era deputado na câmara dos comuns, e que a cidade, em consideração ao enlace, os havia proclamado rei e rainha, permitindo que o antigo monarca mantivesse seu título até o final de sua vida, para a qual eles tinham fixado um prazo máximo de seis meses. A câmara havia decidido também – com o respeito devido à nobreza de seu nascimento – que o príncipe deveria ser imediatamente homenageado com um belo velório e um pomposo funeral. 
A revolução fora tão súbita e tão generalizada que todas as partes a aprovaram, ou foram forçadas a aprová-la. O velho rei morreu no dia seguinte, como os cortesãos afirmaram, de alegria; o príncipe de Quifferiquimini foi sepultado, apesar de seu apelo às leis das nações unidas; e a princesa mais nova ficou tão desgostosa que foi trancafiada num manicômio, onde suplicava dia e noite por um noivo com três pernas. 

Referências bibliográficas e links 

MULVEY-ROBERTS, Marie. (Ed.) The Handbook to Gothic. New York, NY University Press, 
1998. 
WALPOLE, HORACE. Hieroglyphic Tales. Strawberry Hill. Printed by T. Kirgate, 1785. 
www.litgothic.com/Authors/walpole.html 
www.spectrumgothic.com.br/literatura/autores/walpole.htm 
para ler Hieroglyphic Tales (em inglês): 
www.online-literature.com/horace-walpole/hieroglyphic-tales/ 

15 abril, 2016

Teorema, conto de Herbert Helder



El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do Marquês Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de joelhos, as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto um pouco a cabeça, torço o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico de meu Senhor. Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste no meio do tempo. D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados. Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens. O rei olha para mim com simpatia.
Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência espanhola. Tolice. Não me interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o.
Olho de novo para a janela onde se debruça. Ele diz um gracejo. Toda a gente ri. Preparem-me esse coelho, que tenho fome.O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.O que este homem trabalhou na nossa obra! Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas de gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres. Foi um terrível espetáculo que cidades e lugares apreciaram. Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor.
Levanto-me e fico bem defronte do edifício. Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.-Senhor,- agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.-Muito bem – responde o rei. Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-me. 
De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro. Distingo as vozes do povo, a sua ingênua excitação. Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal. Estremeço de frio. Foi o punhal que entrou no meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos. Um moço de rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado. A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo. Percebe como tudo está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem.

Ah, não tenho medo. Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico. Matei por amor do amor – e isso é do espírito demoníaco. O rei e a amante também são criaturas infernais. Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu. Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas. Detesto a rainha.
O moço sobe a escada com a bandeja onde meu coração é um molusco quente e sangrento. Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela. O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita. Mostra-o ao povo, e o meu sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo. Ouvem-se aplausos. Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de um povo assim. Felizmente o nosso rei encontra-se à altura de seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra. Somos também um povo cheio de fé, temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade. Somos todos loucos.
Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul do céu, acima dos telhados. Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina. O claxon de um carro expande-se liricamente no ar. Estamos nos começos de junho. A terra está cheia de seiva. A terra é eterna. À minha volta dizem obscenidades. Alguém sugere que me cortem o pênis. Um moço vai perguntar ao rei se podem fazer, mas este recusa.
-Só o coração, diz. E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente. A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda-me a alma ao Diabo. Eu gostaria de poder agradecer a este meu povo bárbaro e puro as boas palavras violentas. Um filete de sangue escorre do queixo de D. Pedro e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente. O rei come o meu coração. O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio de inteligência do amor e do sentimento da eternidade.O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto de seu plinto de granito. As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima. D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça. Aclama-o o povo mais uma vez e dispersa. Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima.
Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim. Meditaremos. Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do amor à eternidade. O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima.Talvez que a sua inspiração não termine aí, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado. O seu corpo ir-se-á reduzindo à força do fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura. E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração. D. Inês tomou conta de nossas almas. Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda. Entra devagar nos poemas e nas cidades. Nada é tão incorruptível como a sua morte. No crisol do Inferno, manter-nos-emos todos três perenemente límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração. E que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui

(Herberto Helder. Os passos em volta. Lisboa: Assírio Alvim.p 121-125.)