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26 junho, 2012

A Filha do Diabo, de Maria Ondina Braga


Era uma vez uma rainha que carregava consigo o maior dos opróbrios: ser estéril. Uma rainha piedosa e exausta de tanto ter invocado em vão os favores do Céu: Eis aqui a escrava do Senhor!... Recorrendo, obstinada e fervorosa, aos mediadores divinos: Santa Rita de Cássia, advogada das coisas impossíveis, Santa Margarida de Antioquia, mártir. Uma santa que concebera da Hóstia Consagrada (ou da lua?), os olhos em alvo de mística. A rezar, a penitenciar-se, a jejuar, a oferecer esmolas, a acender velas votivas, a rainha, e o seu ventre seco. Os anos, entretanto, a escoarem-se. O rei idoso e afundado no mar de vícios da governação. E o reinado sem descendência. E a raça no fim. Nossa Senhora do Ó. Novenas, missas cantadas, responsos, oblações. E outra vez Santa Rita de Cássia, Santa Margarida de Antioquia. E um santo lá das Arábias (santo ou mago?) por intermédio de quem a soberana do Sabá alcançara de Salomão: Porque os lábios da mulher alheia destilam mel / e a sua boca é mais suave do que o azeite... Condes, duques, gentis-homens a toda hora a rodeá-la, a cortejá-la. Mas... e a honra de sua majestade? E a modéstia cristã?
Assim do inverno à primavera, da primavera ao inverno. As primeiras neves nas fontes. As primeiras rugas na face. Vendo-se certa ocasião na bandeja de prata polida que uma serva lhe chegou com um copo de água, apercebeu-se de um bico sob o queixo. Deixou de dormir. E se passava pelo sono, sonhava com anjos que a embalavam sobre nuvens brancas e frias como lages fúnebres.Anjos de calção, braços nus, penteado à donzela: os mesmos que, na capela-mor, velavam o Santíssimo? E belos e capados como os eunucos do palácio. Acordava gelada, a sondar as pancadas do coração, com medo de já estar morta."
Ano após ano, assim. Estação atrás de estação. Até que um dia, pela tarde, entrou na igreja, a rainha, e, ao contrário do costume, ia aprumada, arrogante, podia-se compará-la, de perfil, à leoa das armas régias. Confiada de que havia, enfim, de descobrir algum remédio, alguma salvação. O seu orgulho espicaçado pelo escárnio do povo: mulher infecunda como monte maninho! Desatando, pois, a esquadrinhar nichos, relicários, medalhas, guiões, foi do pórtico ao arco-cruzeiro, a rainha, visitou o coro, a sacristia, capela por capela. Por baixo de um altar lateral, o corpo incorrupto do bispo São Clemente: sem nenhuma clemência por ela, por mal de seus pecados, o glorioso bispo. Tão-pouco aquele Cristo que, sendo de cera, escapara milagrosamente a vários incêndios: cera de abelhas criadas no Jardim de Getsemani, segundo a tradição. Nem a medida do pé de Maria Santíssima talhada em papel de obreira, que trouxera consigo no seio durante uma trezena. Nenhuma dessas relíquias. Nem veneras. Nem escapulários. Folheava agora livros sagrados, decifrava pergaminhos. Nada. E foi quando, sem mais nem menos, ao lusco-fusco, deparou com o Diabo. Como nunca havia reparado nele. Santo nome de Jesus? O Diabo ali por todo o lado, a par das imagens bentas, dos seres celestiais: o Diabo-dragão-de-sete-cabeças em combate com o Arcanjo São Miguel, com São Jorge Príncipe da Capadócia, o Diabo do Juízo Final, de forquilha, no altar das almas; a serpente alada do pecado original no vitral do Paraíso Perdido; e uma série de diabinhos pequenos como micos, a tentarem as virgens nos painéis. O Diabo. A importância do Diabo. Quem havia de dizer: o Diabo? Concentrou-se, por instantes, a rainha: e porque não o Diabo? Um minuto de hesitação. Depois, a nuca atirada para as costas, pálpebras descidas, ofegante, o eco da sua voz pela nave: Oh, tu, Anjo das Trevas, concede-me a graça que Deus me negou! Fremente a sua prece: Oh Tenebroso!... Noite escura. Duas brasas, os olhos do Diabo, as fauces arreganhadas de lobo, a língua farpada, as patas de javali. Oh, tu, Maldito!...


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Recolheu-se ao palácio, a rainha, tomada de enlevo tanto como de frenesi. Calor, muito calor, se bem que meados de Setembro. O aroma das uvas maduras. O estalar da palha triga sob o vento suão. Andava el-rei a montar: estropeada de cavalos, ganir de cães, gritos de falcões. Vestiu-se de vermelho, a rainha, como na noite de núpcias, deitou-se no vasto leito, caiu em sono profundo, sonhou um sonho estranho. Um sonho onde seu senhor lhe cingia a fronte no meio de uma grande festa: a da coroação? Só que, desajustada, a coroa escorregava-lhe pelas espáduas, descia-lhe à cintura, algemava-a nas ancas. Ela a estrebuchar naquelas cadeias. Nisto, o mundo a abalar nos eixos, um terramoto, um vulcão debaixo dos pés. El-rei, que subitamente se erguera no ar, a diminuir, a apagar-se, tal uma estrela cadente. Sozinha, a rainha? Não, sozinha não, porque a festa continuava, mau grado o cataclismo. E se liberta. A coroa espedaçada. Liberta, mas também cheia de confusão. Acordou alagada em suor. Pecara. Cometera um pecado mortal. Que o fim da mulher adúltera é mais amargo que o absinto / e agudo como a espada de dois gumes... Levantou-se, tremente, mirou-se no espelho do toucador, achou-se mais nova e mais bonita. Adultério? Qual adultério! Sacudia os cabelos ao jeito de querer afastar os últimos escrúpulos. Aliás, quem é que podia dizer: estou puro, estou limpo? Amanhecia. A exaltação da véspera tornou a assaltá-la. Tinha os peitos erectos, e a noz chocha da madre reverdecia-lhe. Nesse mesmo dia, o rei, que Caçara um precioso espécimen de veado-de-espelho, presenteou-a coma armação.
Decorreu um mês. Sua majestade regressou da montaria. A rainha mandou frisar a trança, mandou esmaltar a cara, mandou servir um banquete. Éditos correram cidades e aldeias: ia nascer o herdeiro do trono.
A criança que nasceu foi uma menina, uma menina forte, vivace, pele de oiro negro, cabelo cor da chama dos archotes, olhos de cisterna e de relâmpago. Uma exótica, arrepiante formosura. Como se lhe ia chamar? A rainha é que escolheu o nome: Rahiva. Porque procedia de uma teimosa, dilatada raiva de esperar. Porque havia de trazer consigo todo o assanho, toda a paixão de vingar, de ser, de vencer. Rahiva, nome que queria dizer furibunda fome de amor, e também protesto e prodígio.
Rahiva que, consoante os cálculos reais, nascera adiantada, cresceu maravilhosamente, como a relva ao sol úmido dos trópicos. Com dez anos tinha já aprendido as intrincadas lições de reinar. Cultivava tão bem ou melhor que o pai as flores malignas da ambição e da tirania. E gozava do dom de estar em diversos lugares a um tempo. E intrigava, adulava, traía.
O velho monarca, cada vez mais mirrado e mesquinho, todo se revia agora na princesa Rahiva, e para ela alimentava grandiosos projectos. Verdade que, de longe em longe, um espinho lhe picava a consciência espessa e frágil de papel-de-mataborrão: nessas alturas achava-se a perguntar a si próprio se seria realmente o progenitor de Rahiva. A princesa gerara-se no princípio do outono, quando ele dormia as noites abrigado num toldo de peles ao fundo da coutada, e só sabia da seta e do sangue, como na guerra. Porém, a beleza, a esperteza, a precocidade de Rahiva acabavam por lhe amodorrar tais idéias. Era de certeza sua filha, herdara-lhe os méritos, as maneiras, as manhas. E começou a tratar de lhe arranjar um noivo condigno.
No dia em que o rei participou à filha as negociações em curso, esta, recolhendo-se mais cedo que o habitual, encomendou para a noite um par de sapatos de ferro. Sapatos de ferro? Para quê sapatos de ferro? Ninguém compreendia, mas também ninguém a demovia. Apressou-se o ferrador a confeccionar os chapins na forja faiscante, pondo neles todo o esmero que punha as ferraduras do alazão real. Rahiva retirou-se para os seus aposentos, despediu as camareiras, tirou as roupas, calçou os pesados sapatos, e desapareceu. E sempre assim daí em diante. De dia, a princesa aplicava-se aos afazeres da corte, conferenciava com os políticos, despachava gostosamente, em nome do pai, ordens de prisão e sentenças de morte, cavalgava, enfeitava-se, resplandecia. Pela calada da noite, todavia, desnudando-se, aí enfiava ela os sapatos de ferro e sumia – pela janela? Pela fechadura da porta? Todas as noites um par a estrear. O ferrador, curvado sobre a ferraria e a fornalha. O rei intrigado e tenso. As damas-de-honor queixando-se de um fedor a enxofre queimado. Já antemanhã, sua alteza a dormir a sono solto, como uma criança, e, à entrada da antecâmara, dois pedaços de ferro ardido e gasto.
Entrementes Rahiva mandara forrar as peredes do quarto-de-cama a cetim cor de lume, e a sua beleza de oiro negro encandecia. Os príncipes pretendentes rejeitava-os ela um por um. Corriam na corte extravagantes boatos e histórias as mais fantamasgóricas. No entanto, só a rainha, a rainha, só, sabendo, arrepiada, que Rahiva se precipitava todas as noites no Inferno para bailar, orgiar com os demônios. A prova: os chapins de ferro requeimados e rotos, o cheiro sulfuroso e sufocante.
Extraviado o sono. El-rei entra a arrastar-se a desoras pelas galerias do paço, o corpo dobrado em dois, e suspiros, e constante cismar. Que fadário o da princesa? Que segredo? Que praga? Convoca os conselheiros, o confessor. Conspiram: um baile alongado até a madrugada, os portões trancados, Rahiva a dançar com o filho do corregedor-mor. Impossível interromper o passo de dança, abandonar tão nobre parceiro, despir-se, trocar o elegante calçado de camurça pelo grosseiro de ferro. E caso abalasse mesmo, todo um esquadrão atrás dela. Os seus cavaleiros voavam à velocidade dos ciclones. /span/div
Dito e feito. No Sarau, Rahiva dança com os jovens representantes da flor da nobreza, escuta, complacente, as rimas dos bardos e as canções dos menestréis, sorri, conversa, exibe-se. Até que o galante filho do corregedor lhe vem solicitar um minuete. Falta um quarto para a meia-noite. No seu áureo assento, cofiando a barba grisalha, o rei não a larga de vista. Soam as doze badaladas. Pelo rosto da princesa perpassa uma nuvem que logo se adensa, tal um céu de borrasca. Sucede então ali um fenômeno tão subtil e tão terrível que, mais tarde, ninguém ousará recordá-lo, e, se alguém o recorda, persigna-se. Um rodopio. Nas paredes espelhadas, as figuras, invertidas, causam a impressão de enforcados nos lustres e nos cruzamentos das ogivas. Pares desemparelhando-se. Alarido. As luzes sopradas por uma lufada. Coisa de minutos, quanto muito. E, nesta barafunda, onde está a princesa? Onde está a princesa. brada o rei. Nenhuma pessoa o atende. Os fidalgos a discutir pela trova das noivas. Senhoras a desacordar. No cercado, uns contra os outros, os cavaleiros como se acometidos de loucura, armas quebradas, o relinchar funesto dos corcéis.
Sucumbe o soberano. Nigromantes, mágicos, astrólogos, desentendidos na consulta dos catarpácios e dos astros. O filho do corregedor jurando que Rahiva se encontra dentro do salão, tomando os seus vestidos por ela. Sequer os guardas de atalaia tendo dado por que a princesa saísse. "
Por último, já deitados lado a lado, o rei pergunta à rainha, gaguejante de ressentimento e mal contida fúria, como engendrou ela semelhante filha. Dele, não, ausente à data. Acerta a voz. Esforça-se por se dominar. De início duvidara do seu mais trigueiro e esbelto donzel que condenara ao cadafalso por lhe ter posto a coroa à banda na cerimônia do beija-mão.
A rainha, muda, amordaçada de pavor no lençol de cambraia. O rei emudece também, o olhar fito no dossel. Está visto que os seus pensamentos seguem agora um rumo diferente. Se a princesa Rahiva se comporta de modo tão diverso do das demais criaturas, não terá a criança vindo lá do Alto? Muito religiosa, a rainha, sempre na igreja. Amores com os santos? Com os anjos? Os querubins que sustêm as luzes do sacrário? O donairoso e valente Arcanjo São Miguel?
Mais calmo, sua majestade recupera a palavra. Não é ele senhor e dono da esposa? Não tem o direito de saber tudo? E descanse a rainha que não lhe pedirá contas. Princesa tão formosas e prendada, rara, decerto, no mundo. Orgulha-se de Rahiva. A menina, porém, atingida a puberdade, exige um par de sapatos de ferro todas as noites e desarvora do palácio ninguém advinha para que sítio. Que quer aquilo dizer? Que mistério há ali? “Vamos, responda, dê uma explicação!” Fala aos sacões, quase aos berros, sentado na cama, esguedelhado, a tiritar, decrépito.
'Bem... fora um anjo, sim, mas não os querubins nem São Miguel, responde a rainha. Assexuados, ambos: calções de mancebo, cabeleira e ombros de dama.
"Que anjo, então?
Um negro, peludo de carvões nos olhos.
Com asas?
Sim, com asas. Asas agudas, membranosas, roxas de morcego. 
O rei vai escorregando sobre as almofadas, como se prestes a desfalecer. 'Esse anjo... esse anjo... encontra-se na igreja?
Sim, na igreja, nos retábulos, nas pinturas murais. Nunca antes se firmara nele. O único, contudo, que acedera ao seu rogo de fecundidade. De pálpebras cerradas, a rainha, tal se estivesse a ser beijada, a ser amada. O frenesi e o enleio a retomá-la. Fragantes e mornas as uvas na ramada do pátio. Latido de cães. Nesse dia, vossa majestade presenteou-me com a armação de um veado-de-espelho. Fala lenta, voluptuosamente. O anjo negro também tinha armação. “Aos santos, aos anjos, implorei e de rojo, com humildade e respeito; a este ordenei-lhe, altiva, confiante. E devo dizer-lhe, meu senhor, que jamais me senti tão confortada”. O rei a resfolegar como se um enorme peso o esmagasse: É filha do Diabo! É filha do Diabo!
Um vendaval varre o palácio de lês a lês. Ecoam os sapatos de ferro nas lajes do chão, e estremece o leito real com as palpitações do sangue do rei mirrado e mesquinho: “É filha do Diabo! É filha do Diabo!” O Diabo refastelado no sólio de oiro, bebendo pela taça de diamante, desvendando sigilos de Estado, maquinando, minando, fornicando. O Diabo a abraçar a rainha pelos rins, a enaltecê-la, a levá-la em triunfo pelos caminhos da terra. O povo em fileiras apertadas a aclamar o Diabo. O Diabo monstruoso a pejar a rainha. Ela estorcendo-se no furor, na febre de parir o Diabo. O Diabo a resplandecer como uma constelação no falso firmamento da corte. Ele próprio a idolatrar o Diabo!... Legítimo e nefando sucessor do poder, o Diabo a lançar-se-lhe ao gasnete. A sua alma a debater-se, perdida, nas garras do Diabo.
Um alvoroço pela cidade. Conta-se que, à hora a que o monarca rendia o espírito, ouvia-se um estouro e via-se sair fumo dos aposentos da princesa Rahiva, enquanto a rainha disparava para a igreja.
No adro da igreja, cobras, macacos, bichos imundos a rabiar. Lá dentro, painéis rasgados, vitrais estilhaçados, e, coisa mais espantosa ainda: o Arcanjo São Gabriel a trespassar com a lança um colo de mulher.

'Conto inserido na antologia O Fantástico no Feminino/ Moraes, 1985/

A DAMA DO PÉ-DE-CABRA, de Alexandre Herculano


Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia. E não me digam no fim: — "não pode ser." — Pois eu sei cá inventar coisas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague. Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos do que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos como Cristo lhe perdoou. 
Silêncio profundíssimo; porque vou principiar:
D. Diogo Lopes era um infatigável monteiro: neves da serra no inverno, sóis dos estevais no verão, noites e madrugadas, disso se ria ele. Pela manhã cedo de um dia sereno, estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco montês, que, batido pelos caçadores, devia dar naquela assomada. Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar. Levantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ela estava assentada uma formosa dama: era a dama quem cantava. 
O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco. "Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me cativastes? 

"Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu senhor de Biscaia." "Se já sabeis quem eu seja, ofereço-vos a minha mão, e com ela as minhas terras e vassalos. 

"Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavaleiro que és. Guarda os teus vassalos, senhor de Biscaia, que poucos são eles para te baterem a caça. 
"Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu oferecer digno de vós e de mim; que se a vossa beleza é divina, eu sou em toda a Espanha o rico-homem mais abastado?" 
"Rico-homem, rico-homem, o que eu te aceitaria em arras coisa é de pouca valia; mas, apesar disso, não creio que mo concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."
"E se eu te amasse mais que a minha mãe, por que não te cederia qualquer dos seus muitos legados? 
"Então, se queres ver-me sempre ao pé de ti, não jures que farás o que dizes, mas dá-me disso a tua palavra." "A la fé de cavaleiro, não darei uma; darei milhentas palavras. 
"Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma coisa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino e que, estando para morrer, ainda te recordava. 
"De que, de que, donzela? acudiu o cavaleiro com os olhos chamejantes. — De nunca dar tréguas à mourisca, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom cristão. Guai de ti e de mim, se és dessa raça danada! 
"Não é isso, dom cavaleiro — interrompeu a donzela a rir. — O de que eu quero que te esqueças é o sinal da cruz: o que eu quero que me prometas é que nunca mais hás-de persignar-te. 
"Jsso agora é outra coisa" — respondeu D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdera o caminho do céu. E pôs-se um pouco a cismar. E, cismando, dizia consigo: — De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Santiago. Ela por ela. Um presente ao apóstolo e duzentas cabeças de cães de Mafamede valem bem um grosso pecado. E, erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou:
— "Seja assim: está dito. Vá, com seiscentos diabos." E, levando a bela dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado. Só quando, à noite, no seu castelo, pôde considerar miudamente as formas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados como os de cabra.
Dirá agora alguém: — Era, por certo, o demônio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria! Pois sabei que não ia nada. Por anos, a dama e o cavaleiro viveram em boa paz e união. Dois argumentos vivos havia disso: Inigo Guerra e Dona Sol, enlevo ambos de seu pai. 
Um dia de tarde, D. Diogo voltou de montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo ao aposento onde comia, para se regalar de ver a excelente preia que havia preado. Seu filho assentou-se ao pé dele: ao pé da mãe Dona Sol; e começaram alegremente seu jantar 
"Boa montaria, D. Diogo — dizia sua mulher. Foi uma boa e limpa caçada. 
"Pelas tripas de Judas! — respondeu o barão. Que há bem cinco anos não colho urso ou porco montês que este valha!"
Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado, virou-o de golpe à saúde de todos os ricos-homens fragueiros e monteadores. E a comer e a beber durou até a noite o jantar. Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a quem muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono e, até, com os servos de casa. 
A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e dela não menos prezada. 
O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semicerrados, como quem dormitava. A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pêlo liso e macio reluzia-lhe com um reflexo avermelhado. 
O barão, depois da saúde urbi et orbi feita aos monteiros, esgotava um quírie comprido de saúdes particulares, e a cada nome uma taça. Estava como cumpria a um rico-homem ilustre, que nada mais tinha que fazer neste mundo, senão dormir, beber, comer e caçar. E o alão cabeceava, como um abade velho em seu coro, e a podenga saltava. 
O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua carne e medula e, atirando-o ao alão, gritou-lhe: — "Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe senão correr e retouçar.
" O canzarrão abriu os olhos, rosnou, pôs a pata sobre o osso e, abrindo a boca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir deslavado. Mas logo soltou um uivo e caiu, perneando meio morto: a podenga, de um pulo, lhe saltara à garganta, e o alão agonizava. 
"Pelas barbas de D. From, meu bisavô! — exclamou D. Diogo, pondo-se em pé, trêmulo de cólera e de vinho. —A perra maldita matou-me o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorchá-la." E, virando com o pé o cão moribundo, mirava as largas feridas do nobre animal, que expirava. 
"A la fé que nunca tal vi! Virgem bendita. Aqui anda coisa de Belzebu.
" — E dizendo e fazendo, BENZIA-SE E PERSIGNAVA-SE. 
"Ui!"— gritou sua mulher, como se a houveram queimado. O barão olhou para ela: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras, a boca torcida e os cabelos eriçados. E ia-se alevantando, alevantando ao ar, com a pobre D. Sol sobraçada debaixo do braço esquerdo: o direito estendia-o por cima da mesa para seu filho, D. Inigo de Biscaia. E aquele braço crescia, alongando-se para o mesquinho, que, de medo, não ousava bulir nem falar. E a mão da dama era preta e luzidia, como o pêlo da podenga, e as unhas tinham-se-lhe estendido bem meio palmo e recurvado em garras. "Jesus, santo nome de Deus!" bradou D. Diogo, a quem o terror dissipara as fumaças do vinho. E, travando de seu filho com a esquerda fez no ar com a direita, uma e outra vez, o sinal da cruz. E sua mulher deu um grande gemido e largou o braço de Inigo Guerra, que já tinha seguro, e, continuando a subir ao alto, saiu por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava. 
Desde esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha. A podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguém no castelo lhe tornou a pôr a vista em cima. D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrecido, porque já não se atrevia a montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer sua tristura, e, em vez de ir à caça dos cerdos, ursos e zebras, sair à caça de mouros. Mandou, pois, alevantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira, e provar seus arneses. Entregou a Inigo Guerra, que já era mancebo e cavaleiro, o governo de seus castelos, e partiu com lustrosa mesnada de homens d'armas para a hoste del-rei Ramiro, que ia em fossado contra a mourisma de Espanha.Por muito tempo não houve dele, em Biscaia, nem novas nem mensageiros.


O ovo com solenidade, Duílio Gomes


O CEGO ESTAVA QUEBRANDO O OVO para fazer omelete quando o porco entrou na cozinha. Sentiu-o aos seus pés; em silêncio, cheirava os seus pés. O cego estava de sandálias e a saliva do porco era uma coisa quente e líquida molhando o seu calcanhar direito. Os músculos do cego se retesaram. Sua ;mulher e sua filha haviam saído. Elas sabiam do grande medo que ele tinha de porcos e por isso os trancavam no chiqueiro. O cego percebeu, dentro da névoa do seu medo, que eles haviam arrebentado as tábuas podres do chiqueiro e saído. A mulher já o havia advertido: "As tábuas do chiqueiro estão podres. Precisamos trocá-las.” Eram três porcos gordos e espremidos no chiqueiro cujas tábuas iam apodrecendo debaixo das chuvas e dos carunchos. Viviam alucinados pelo calor, engordando e envelhecendo com as moscas que lhes trepavam nos lombos. O cego estava sempre adiando a data de matá-los — esperava uma visita importante qualquer, já não sabia há quanto tempo eles estavam em sua casa. Só sabia de sua aversão por eles e de uma iminente visita importante, quando então os mataria. Havia deixado a casca do ovo cair no chão e o porco agora a comia. Pelo menos enquanto ele come não se lembra de mim, pensou. Os velhos e agudos dentes do porco trituravam a casca e o cego pensou então que aqueles dentes, apesar de velhos, rasgariam a carne de suas pernas como se elas fossem manteiga. Tinha tanto medo do porco morder as suas pernas que elas não obedeciam ao seu intenso desejo de correr, e permaneciam fincadas no chão, expostas aos agudos dentes velhos do porco que agora, pelo silêncio, o cego sabia ter terminado de comer a casca do ovo e começava a cheirar o ar com seu largo, sujo e enrugado focinho de porco velho. As tábuas da escada que dava do quintal para a cozinha rangeram. Estão subindo os outros, pensou o cego e o seu terror nesse momento foi tão intenso que ele sentiu, no escuro poço de sua vertigem, as pernas bambearem. Não posso cair, murmurou, não posso cair. Como um soco em sua memória, o aviso da mulher: só chegaremos à noite. Haviam saído, ela e a filha, para visitar uma parenta doente e o cego se rendeu, subitamente, à dolorosa realidade — ter de permanecer durante longo tempo como um monumento lívido e frágil em meio aos porcos. Eles agora rodeavam as suas pernas, grunhindo. Misturado aos seus roncos, que ecoavam na cozinha como a nota mais grave de um instrumento de sopro, o cheiro enjoativo do ovo sobre o prato. O cego lembrou-se, com uma ponta de desespero, da omelete que nunca comeria e então fez o gesto que talvez o salvasse da fome e do ódio dos seus porcos: com as mãos trêmulas derramou o ovo no chão. Foi um gesto mecânico e tateante mas que inaugurou nele uma certa paz — os porcos lambiam o ovo no chão e isso era a trégua; enquanto eles se alimentavam não se lembrariam de suas pernas.
Sua mulher tinha costume de deixar os mantimentos sobre a pia, na frente da qual se encontrava, e ele tentava agora localizá-los. Sabia que a menina havia feito a feira naquela manhã e que enquanto entregava os mantimentos para a mãe, ia nomeando-os. Estava tudo na sua frente, além do vácuo negro dos seus olhos. Precisava detectar os mantimentos e com eles saciar a dura fome dos porcos. Apalpando a superfície úmida da pia, seus dedos tocaram num objeto morno. Era um objeto morno e redondo, com uma haste encimando-o. Abóbora, pensou, e puxou-a pela haste. O ruído seco da abóbora caindo no chão foi o ruído de uma abóbora que se partia e que se ofertava, amarela e luminosa, à avidez dos porcos. O ruído que se seguiu ao da abóbora se partindo foi o ruído dos porcos mastigando. Mastigavam com pressa e grunhiam. Havia satisfação nos seus grunhidos.
O cego, então, com uma escura dificuldade, foi localizando e atirando ao chão o arroz, os quiabos, a couve, até que, não encontrando mais nada para atirar, escutou: a bolha de saliva arrebentando . Pelo denso silêncio que subia do chão ele entendeu que a bolha de saliva fora o final do festim. Entendeu também, com a profunda e mágica percepção dos cegos, que os porcos ainda não estavam saciados. E que o rodeavam, pensativos, os olhos fixos em suas pernas.

25 junho, 2012

Canibais, de Moacyr Scliar

Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação.
O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta.
Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subsequentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que se contentava em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas.
No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel.

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De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício. Bárbara observou-a em silêncio.
Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc. Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas. Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc. No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro.
Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho. Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas. Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor.
Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação.
No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida
- Foram os índios. Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade.

Fonte: Os melhores contos de Moacyr Scliar, Global Editora.



Uma Noite de Verão, de Ambrose Bierce

O fato de estar enterrado não parecia provar a Henry Armstrong que ele tivesse morrido: sempre fora um homem difícil de convencer. Que ele estivesse realmente enterrado o testemunho de seus sentidos o levava a admitir. Sua postura – deitado de costas, as mãos cruzadas sobre o estômago e atadas com alguma coisa que ele partiu facilmente, sem melhorar muito a situação –, o confinamento estrito de toda a sua pessoa, a escuridão negra e o silêncio profundo, tudo isso compunha um corpo de evidência impossível de contradizer, e ele o aceitava sem objeção.
Mas morto – não. Ele estava apenas muito, muito doente. E tinha, além disso, a apatia dos inválidos, sem se preocupar demais com o destino incomum que lhe fora reservado. Não era filósofo – apenas uma pessoa ordinária e rasa, dotada, naquele momento, de uma indiferença patológica: o órgão do qual temia conseqüências estava entorpecido. Assim, sem nenhuma apreensão particular quanto ao seu futuro imediato, dormiu, e tudo estava em paz com Henry Armstrong. 
Mas alguma coisa se passava logo acima. Era uma noite escura de verão, rasgada por clarões ocasionais de relâmpagos que dardejavam contra uma nuvem baixa, a oeste, anunciando tempestade. Essas iluminações breves, balbuciantes, faziam aparecer, com nitidez espectral, os monumentos e as lápides do cemitério, tal como se os colocasse para dançar. Não era uma noite em que uma testemunha qualquer pudesse, de modo crível, perambular por ali, de modo que os três homens que lá apareceram, a cavar o túmulo de Henry Armstrong, se sentiam razoavelmente seguros.
Dois deles eram estudantes da faculdade de medicina, que ficava algumas milhas adiante. O terceiro era um negro gigantesco, chamado Jess. Por muitos anos, Jess tinha sido empregado no cemitério como uma espécie de faz-tudo, e era o seu bordão favorito dizer que conhecia “todas as almas do lugar”. Pela natureza do que estava a fazer agora, inferia-se que o lugar não era tão populoso quanto o registro o teria demonstrado.

Do lado de fora do muro, numa parte distanciada da estrada pública, estavam um cavalo e uma carroça a esperar.

O trabalho de escavação não era difícil: a terra com que o túmulo fora coberto poucas horas antes oferecia pouca resistência, sendo logo retirada. Remover o esquife de dentro do nicho foi menos fácil, mas não impossível, pois se tratava de uma habilidade de Jess, o qual desparafusou a tampa com cuidado e a colocou de lado, expondo o corpo com suas calças pretas e a camisa branca. Nesse exato instante o ar se inflamou, o estrondo ensurdecedor do trovão abalou o mundo, e Henry Armstrong se sentou tranqüilamente. Com gritos inarticulados, os homens fugiram de pavor, cada um numa direção. Por nada no mundo dois deles teriam sido persuadidos a retornar. Mas Jess era de outra têmpera.

No lusco do amanhecer, os dois estudantes – pálidos e exaustos do terror e da ansiedade causados pela aventura precedente, que ainda latejavam tumultuários em seu sangue – se encontraram na faculdade de medicina. ;
– Você viu? – gritou um deles.
– Meu Deus, sim! Que vamos fazer?
Foram até os fundos do edifício, onde viram um cavalo atrelado a uma carroça e amarrado a um mourão junto à porta da sala de dissecação. Entraram mecanicamente no cômodo. Sentado num banco, oculto pela obscuridade, estava Jess. Levantou-se, sorrindo, todo olhos e dentes.
– Estou esperando pelo meu pagamento – disse.
Estendido nu sobre uma mesa comprida jazia o corpo de Henry Armstrong, a cabeça lambuzada pelo sangue e pela lama de uma pazada.

(Traduzido por Renato Suttana)