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28 junho, 2012

Uma história de amor e loucura



Pilares adornados emolduram as ruinas cobertas de hera do castelo Baldoon, que se ergue em um trexo desolado das terras baixas escocesas, cerca de 130 quilômetros" de Glasgow, Baldoon foi o cenário de uma história trágica, mais tarde imortalizada por Sir Walter Scott em seu romance Lúcia de Lammermor.
A história real envolveu a familia de Sir James Dalrymple, eminente jurista e estadista. Sua filha mais velha era a bela Janet Dalrymple, que antes de atingir a maioridade comprometeu-se em segredo com um jovem nobre pobre a quem amava, Lord Rutherford.
Os pais de Janet, particularmente sua mãe, uma mulher arrogante cujos ditames nem mesmo seu marido se atrevia a contrariar, reprovaram a união dos dois apaixonados jovens.
Impotente diante da autoritária mãe, Janet não teve outra alternativa senão renunciar à felicidade e, assim, viu-se forçada a faltar com a palavra dada a seu verdadeiro e grande amor, submetendo-se à vontade dos seus pais, obedecendo à determinação destes de casá-la com o homem escolhido por eles, David Dunbar, sobrinho de Rutherford e herdeiro de Baldoon. Triste, infeliz, mas resignada,Janet casou-se com Dunbar no dia 24 de agosto de 1669.
Há várias versões do que ocorreu na trágica noite de núpcias, porém a mais conhecida conta que houve um grande banquete e um esplendoroso baile em Baldoon ,durante o qual o casal se recolheu aos seus aposentos, como ditava a tradição milenar. 
Logo depois, os convidados ouviram assustados, aterrorizantes.gritos vindo do quarto nupcial.
Arrombando a porta, perplexos os pais e alguns convidados acharam Dumbar estendido no chão, ensanguentado por vários ferimentos de faca. A noiva, com o vestido todo sujo de sangue, estava agachada em um canto, murmurando consigo mesma, claramente enlouquecida. 
As únicas palavras coerentes que a ouviran dizer foi: "Levem daqui esse noivo ossudo". Dunbar sobreviveu, mas Janet morreu em menos de um mês. Diz-se que seu fantasma manchado de sangue ainda assombra Baldoon, talvez em espiação, talvez procurando por seu amor perdido. 

Autor: Denis Ferraz



Flor, Telefone, Moça, de Carlos Drummond de Andrade


Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
– Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
– Mas você não vai acreditar, juro.
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
– Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defundo, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!
– No interior isso não é raro…
– Mas a moça era de Botafogo.
– Ela trabalhava?
– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma… Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.
– Que flor?

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– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
– Aloooô…
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:
– O quê?
Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.
– Alô.
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
– Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.
Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
– Vem buscar, estou te dizendo.
– Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.
– Mas quem está falando aí?
– Me dá minha flor, eu estou te suplicando.
– Diga o nome, senão eu não dou.
– Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.
O trote era estúpido, não variava, e moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.
Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.
– Alô!
– Quede a flor…
Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:
– Olhe, vire a chapa, já está pau.
– Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
– Essa é fraquinha. Não sabe de outra?
E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda… Você está vendo que a moça começou a ter medo.
– E eu também.
– Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.
A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam “a voz”.
– A voz chamou hoje? Indagava o pai, chegando da cidade.
– Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.
Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?
O rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia… Discava, ouvia o alô, conferia a voz – não era –, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto – o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça – e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.
Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas. Então a “voz”, que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “você me dá minha flor”, mas “quero minha flor”, “quem furtou minha flor tem que restituir”, etc. Diálogo com essas pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.
Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica…
– Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?
– Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.
Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque – já disse que era distraída – nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse…
O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.
Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?
O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e esta flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?
– Mas, e a moça?
– Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.

26 junho, 2012

A Filha do Diabo, de Maria Ondina Braga


Era uma vez uma rainha que carregava consigo o maior dos opróbrios: ser estéril. Uma rainha piedosa e exausta de tanto ter invocado em vão os favores do Céu: Eis aqui a escrava do Senhor!... Recorrendo, obstinada e fervorosa, aos mediadores divinos: Santa Rita de Cássia, advogada das coisas impossíveis, Santa Margarida de Antioquia, mártir. Uma santa que concebera da Hóstia Consagrada (ou da lua?), os olhos em alvo de mística. A rezar, a penitenciar-se, a jejuar, a oferecer esmolas, a acender velas votivas, a rainha, e o seu ventre seco. Os anos, entretanto, a escoarem-se. O rei idoso e afundado no mar de vícios da governação. E o reinado sem descendência. E a raça no fim. Nossa Senhora do Ó. Novenas, missas cantadas, responsos, oblações. E outra vez Santa Rita de Cássia, Santa Margarida de Antioquia. E um santo lá das Arábias (santo ou mago?) por intermédio de quem a soberana do Sabá alcançara de Salomão: Porque os lábios da mulher alheia destilam mel / e a sua boca é mais suave do que o azeite... Condes, duques, gentis-homens a toda hora a rodeá-la, a cortejá-la. Mas... e a honra de sua majestade? E a modéstia cristã?
Assim do inverno à primavera, da primavera ao inverno. As primeiras neves nas fontes. As primeiras rugas na face. Vendo-se certa ocasião na bandeja de prata polida que uma serva lhe chegou com um copo de água, apercebeu-se de um bico sob o queixo. Deixou de dormir. E se passava pelo sono, sonhava com anjos que a embalavam sobre nuvens brancas e frias como lages fúnebres.Anjos de calção, braços nus, penteado à donzela: os mesmos que, na capela-mor, velavam o Santíssimo? E belos e capados como os eunucos do palácio. Acordava gelada, a sondar as pancadas do coração, com medo de já estar morta."
Ano após ano, assim. Estação atrás de estação. Até que um dia, pela tarde, entrou na igreja, a rainha, e, ao contrário do costume, ia aprumada, arrogante, podia-se compará-la, de perfil, à leoa das armas régias. Confiada de que havia, enfim, de descobrir algum remédio, alguma salvação. O seu orgulho espicaçado pelo escárnio do povo: mulher infecunda como monte maninho! Desatando, pois, a esquadrinhar nichos, relicários, medalhas, guiões, foi do pórtico ao arco-cruzeiro, a rainha, visitou o coro, a sacristia, capela por capela. Por baixo de um altar lateral, o corpo incorrupto do bispo São Clemente: sem nenhuma clemência por ela, por mal de seus pecados, o glorioso bispo. Tão-pouco aquele Cristo que, sendo de cera, escapara milagrosamente a vários incêndios: cera de abelhas criadas no Jardim de Getsemani, segundo a tradição. Nem a medida do pé de Maria Santíssima talhada em papel de obreira, que trouxera consigo no seio durante uma trezena. Nenhuma dessas relíquias. Nem veneras. Nem escapulários. Folheava agora livros sagrados, decifrava pergaminhos. Nada. E foi quando, sem mais nem menos, ao lusco-fusco, deparou com o Diabo. Como nunca havia reparado nele. Santo nome de Jesus? O Diabo ali por todo o lado, a par das imagens bentas, dos seres celestiais: o Diabo-dragão-de-sete-cabeças em combate com o Arcanjo São Miguel, com São Jorge Príncipe da Capadócia, o Diabo do Juízo Final, de forquilha, no altar das almas; a serpente alada do pecado original no vitral do Paraíso Perdido; e uma série de diabinhos pequenos como micos, a tentarem as virgens nos painéis. O Diabo. A importância do Diabo. Quem havia de dizer: o Diabo? Concentrou-se, por instantes, a rainha: e porque não o Diabo? Um minuto de hesitação. Depois, a nuca atirada para as costas, pálpebras descidas, ofegante, o eco da sua voz pela nave: Oh, tu, Anjo das Trevas, concede-me a graça que Deus me negou! Fremente a sua prece: Oh Tenebroso!... Noite escura. Duas brasas, os olhos do Diabo, as fauces arreganhadas de lobo, a língua farpada, as patas de javali. Oh, tu, Maldito!...


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Recolheu-se ao palácio, a rainha, tomada de enlevo tanto como de frenesi. Calor, muito calor, se bem que meados de Setembro. O aroma das uvas maduras. O estalar da palha triga sob o vento suão. Andava el-rei a montar: estropeada de cavalos, ganir de cães, gritos de falcões. Vestiu-se de vermelho, a rainha, como na noite de núpcias, deitou-se no vasto leito, caiu em sono profundo, sonhou um sonho estranho. Um sonho onde seu senhor lhe cingia a fronte no meio de uma grande festa: a da coroação? Só que, desajustada, a coroa escorregava-lhe pelas espáduas, descia-lhe à cintura, algemava-a nas ancas. Ela a estrebuchar naquelas cadeias. Nisto, o mundo a abalar nos eixos, um terramoto, um vulcão debaixo dos pés. El-rei, que subitamente se erguera no ar, a diminuir, a apagar-se, tal uma estrela cadente. Sozinha, a rainha? Não, sozinha não, porque a festa continuava, mau grado o cataclismo. E se liberta. A coroa espedaçada. Liberta, mas também cheia de confusão. Acordou alagada em suor. Pecara. Cometera um pecado mortal. Que o fim da mulher adúltera é mais amargo que o absinto / e agudo como a espada de dois gumes... Levantou-se, tremente, mirou-se no espelho do toucador, achou-se mais nova e mais bonita. Adultério? Qual adultério! Sacudia os cabelos ao jeito de querer afastar os últimos escrúpulos. Aliás, quem é que podia dizer: estou puro, estou limpo? Amanhecia. A exaltação da véspera tornou a assaltá-la. Tinha os peitos erectos, e a noz chocha da madre reverdecia-lhe. Nesse mesmo dia, o rei, que Caçara um precioso espécimen de veado-de-espelho, presenteou-a coma armação.
Decorreu um mês. Sua majestade regressou da montaria. A rainha mandou frisar a trança, mandou esmaltar a cara, mandou servir um banquete. Éditos correram cidades e aldeias: ia nascer o herdeiro do trono.
A criança que nasceu foi uma menina, uma menina forte, vivace, pele de oiro negro, cabelo cor da chama dos archotes, olhos de cisterna e de relâmpago. Uma exótica, arrepiante formosura. Como se lhe ia chamar? A rainha é que escolheu o nome: Rahiva. Porque procedia de uma teimosa, dilatada raiva de esperar. Porque havia de trazer consigo todo o assanho, toda a paixão de vingar, de ser, de vencer. Rahiva, nome que queria dizer furibunda fome de amor, e também protesto e prodígio.
Rahiva que, consoante os cálculos reais, nascera adiantada, cresceu maravilhosamente, como a relva ao sol úmido dos trópicos. Com dez anos tinha já aprendido as intrincadas lições de reinar. Cultivava tão bem ou melhor que o pai as flores malignas da ambição e da tirania. E gozava do dom de estar em diversos lugares a um tempo. E intrigava, adulava, traía.
O velho monarca, cada vez mais mirrado e mesquinho, todo se revia agora na princesa Rahiva, e para ela alimentava grandiosos projectos. Verdade que, de longe em longe, um espinho lhe picava a consciência espessa e frágil de papel-de-mataborrão: nessas alturas achava-se a perguntar a si próprio se seria realmente o progenitor de Rahiva. A princesa gerara-se no princípio do outono, quando ele dormia as noites abrigado num toldo de peles ao fundo da coutada, e só sabia da seta e do sangue, como na guerra. Porém, a beleza, a esperteza, a precocidade de Rahiva acabavam por lhe amodorrar tais idéias. Era de certeza sua filha, herdara-lhe os méritos, as maneiras, as manhas. E começou a tratar de lhe arranjar um noivo condigno.
No dia em que o rei participou à filha as negociações em curso, esta, recolhendo-se mais cedo que o habitual, encomendou para a noite um par de sapatos de ferro. Sapatos de ferro? Para quê sapatos de ferro? Ninguém compreendia, mas também ninguém a demovia. Apressou-se o ferrador a confeccionar os chapins na forja faiscante, pondo neles todo o esmero que punha as ferraduras do alazão real. Rahiva retirou-se para os seus aposentos, despediu as camareiras, tirou as roupas, calçou os pesados sapatos, e desapareceu. E sempre assim daí em diante. De dia, a princesa aplicava-se aos afazeres da corte, conferenciava com os políticos, despachava gostosamente, em nome do pai, ordens de prisão e sentenças de morte, cavalgava, enfeitava-se, resplandecia. Pela calada da noite, todavia, desnudando-se, aí enfiava ela os sapatos de ferro e sumia – pela janela? Pela fechadura da porta? Todas as noites um par a estrear. O ferrador, curvado sobre a ferraria e a fornalha. O rei intrigado e tenso. As damas-de-honor queixando-se de um fedor a enxofre queimado. Já antemanhã, sua alteza a dormir a sono solto, como uma criança, e, à entrada da antecâmara, dois pedaços de ferro ardido e gasto.
Entrementes Rahiva mandara forrar as peredes do quarto-de-cama a cetim cor de lume, e a sua beleza de oiro negro encandecia. Os príncipes pretendentes rejeitava-os ela um por um. Corriam na corte extravagantes boatos e histórias as mais fantamasgóricas. No entanto, só a rainha, a rainha, só, sabendo, arrepiada, que Rahiva se precipitava todas as noites no Inferno para bailar, orgiar com os demônios. A prova: os chapins de ferro requeimados e rotos, o cheiro sulfuroso e sufocante.
Extraviado o sono. El-rei entra a arrastar-se a desoras pelas galerias do paço, o corpo dobrado em dois, e suspiros, e constante cismar. Que fadário o da princesa? Que segredo? Que praga? Convoca os conselheiros, o confessor. Conspiram: um baile alongado até a madrugada, os portões trancados, Rahiva a dançar com o filho do corregedor-mor. Impossível interromper o passo de dança, abandonar tão nobre parceiro, despir-se, trocar o elegante calçado de camurça pelo grosseiro de ferro. E caso abalasse mesmo, todo um esquadrão atrás dela. Os seus cavaleiros voavam à velocidade dos ciclones. /span/div
Dito e feito. No Sarau, Rahiva dança com os jovens representantes da flor da nobreza, escuta, complacente, as rimas dos bardos e as canções dos menestréis, sorri, conversa, exibe-se. Até que o galante filho do corregedor lhe vem solicitar um minuete. Falta um quarto para a meia-noite. No seu áureo assento, cofiando a barba grisalha, o rei não a larga de vista. Soam as doze badaladas. Pelo rosto da princesa perpassa uma nuvem que logo se adensa, tal um céu de borrasca. Sucede então ali um fenômeno tão subtil e tão terrível que, mais tarde, ninguém ousará recordá-lo, e, se alguém o recorda, persigna-se. Um rodopio. Nas paredes espelhadas, as figuras, invertidas, causam a impressão de enforcados nos lustres e nos cruzamentos das ogivas. Pares desemparelhando-se. Alarido. As luzes sopradas por uma lufada. Coisa de minutos, quanto muito. E, nesta barafunda, onde está a princesa? Onde está a princesa. brada o rei. Nenhuma pessoa o atende. Os fidalgos a discutir pela trova das noivas. Senhoras a desacordar. No cercado, uns contra os outros, os cavaleiros como se acometidos de loucura, armas quebradas, o relinchar funesto dos corcéis.
Sucumbe o soberano. Nigromantes, mágicos, astrólogos, desentendidos na consulta dos catarpácios e dos astros. O filho do corregedor jurando que Rahiva se encontra dentro do salão, tomando os seus vestidos por ela. Sequer os guardas de atalaia tendo dado por que a princesa saísse. "
Por último, já deitados lado a lado, o rei pergunta à rainha, gaguejante de ressentimento e mal contida fúria, como engendrou ela semelhante filha. Dele, não, ausente à data. Acerta a voz. Esforça-se por se dominar. De início duvidara do seu mais trigueiro e esbelto donzel que condenara ao cadafalso por lhe ter posto a coroa à banda na cerimônia do beija-mão.
A rainha, muda, amordaçada de pavor no lençol de cambraia. O rei emudece também, o olhar fito no dossel. Está visto que os seus pensamentos seguem agora um rumo diferente. Se a princesa Rahiva se comporta de modo tão diverso do das demais criaturas, não terá a criança vindo lá do Alto? Muito religiosa, a rainha, sempre na igreja. Amores com os santos? Com os anjos? Os querubins que sustêm as luzes do sacrário? O donairoso e valente Arcanjo São Miguel?
Mais calmo, sua majestade recupera a palavra. Não é ele senhor e dono da esposa? Não tem o direito de saber tudo? E descanse a rainha que não lhe pedirá contas. Princesa tão formosas e prendada, rara, decerto, no mundo. Orgulha-se de Rahiva. A menina, porém, atingida a puberdade, exige um par de sapatos de ferro todas as noites e desarvora do palácio ninguém advinha para que sítio. Que quer aquilo dizer? Que mistério há ali? “Vamos, responda, dê uma explicação!” Fala aos sacões, quase aos berros, sentado na cama, esguedelhado, a tiritar, decrépito.
'Bem... fora um anjo, sim, mas não os querubins nem São Miguel, responde a rainha. Assexuados, ambos: calções de mancebo, cabeleira e ombros de dama.
"Que anjo, então?
Um negro, peludo de carvões nos olhos.
Com asas?
Sim, com asas. Asas agudas, membranosas, roxas de morcego. 
O rei vai escorregando sobre as almofadas, como se prestes a desfalecer. 'Esse anjo... esse anjo... encontra-se na igreja?
Sim, na igreja, nos retábulos, nas pinturas murais. Nunca antes se firmara nele. O único, contudo, que acedera ao seu rogo de fecundidade. De pálpebras cerradas, a rainha, tal se estivesse a ser beijada, a ser amada. O frenesi e o enleio a retomá-la. Fragantes e mornas as uvas na ramada do pátio. Latido de cães. Nesse dia, vossa majestade presenteou-me com a armação de um veado-de-espelho. Fala lenta, voluptuosamente. O anjo negro também tinha armação. “Aos santos, aos anjos, implorei e de rojo, com humildade e respeito; a este ordenei-lhe, altiva, confiante. E devo dizer-lhe, meu senhor, que jamais me senti tão confortada”. O rei a resfolegar como se um enorme peso o esmagasse: É filha do Diabo! É filha do Diabo!
Um vendaval varre o palácio de lês a lês. Ecoam os sapatos de ferro nas lajes do chão, e estremece o leito real com as palpitações do sangue do rei mirrado e mesquinho: “É filha do Diabo! É filha do Diabo!” O Diabo refastelado no sólio de oiro, bebendo pela taça de diamante, desvendando sigilos de Estado, maquinando, minando, fornicando. O Diabo a abraçar a rainha pelos rins, a enaltecê-la, a levá-la em triunfo pelos caminhos da terra. O povo em fileiras apertadas a aclamar o Diabo. O Diabo monstruoso a pejar a rainha. Ela estorcendo-se no furor, na febre de parir o Diabo. O Diabo a resplandecer como uma constelação no falso firmamento da corte. Ele próprio a idolatrar o Diabo!... Legítimo e nefando sucessor do poder, o Diabo a lançar-se-lhe ao gasnete. A sua alma a debater-se, perdida, nas garras do Diabo.
Um alvoroço pela cidade. Conta-se que, à hora a que o monarca rendia o espírito, ouvia-se um estouro e via-se sair fumo dos aposentos da princesa Rahiva, enquanto a rainha disparava para a igreja.
No adro da igreja, cobras, macacos, bichos imundos a rabiar. Lá dentro, painéis rasgados, vitrais estilhaçados, e, coisa mais espantosa ainda: o Arcanjo São Gabriel a trespassar com a lança um colo de mulher.

'Conto inserido na antologia O Fantástico no Feminino/ Moraes, 1985/