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Seja Bem Vindos!

10 agosto, 2012

Os locais mais assustadores do mundo


O tipo de turismo que é especializado em acontecimentos sobrenaturais é realizado em todas as partes do planeta.
O chamado Turismo de Terror ganha espaço em locais históricos onde aconteceu algum indício de manifestação paranormal.
 Na Europa, principalmente, castelos e fortalezas trazem histórias de guerras e execuções que, supostamente, deixaram para trás espíritos que ainda procuram a luz.
Nos Estados Unidos, locais mais contemporâneos trazem histórias não menos assustadoras.
Se você tem coragem e quer conhecer os lugares mais misteriosos do mundo, confira esta lista preparada pela Revista Time, e veja o que e quem você pode encontrar ao visitar cada local. Boa viagem e boa sorte.

A Casa Amityville
Esta casa situada no número 112 da Ocean Avenue, em Amityville, Nova York, foi palco de um brutal assassinato em 14 de novembro de 1974. Aos 23 anos, Ronald DeFeo Jr. atirou e matou seus pais e quatro irmãos.
Pouco mais de um ano após o crime, George e Kathy Lutz e seus quatro filhos se mudaram para a casa dos DeFeo. A família adorou a casa, mas as coisas mudaram após poucos dias. Mesmo depois de ter o lugar abençoado por um padre, a família começou a passar por situações estranhas, como ouvir ruídos, passos e sentir odores misteriosos.
A versão dos Lutz sempre foi contestada, e muitos dizem que ela fez parte de uma jogada de publicidade para um conto literário. O fato é que a casa de Amityville ficou conhecida como um dos lugares mais assustadores dos Estados Unidos. Atualmente, ela está à venda e ainda é visitada por dezenas de curiosos que querem ver de perto o imóvel que inspirou livros e filmes.

Torre de Londres 
Erguida por William o Conquistador, no século 11, esta antiga prisão política e local de execução tem sido vista como um dos edifícios mais assombrado das Ilhas Britânicas. Entre os fantasmas ¿avistados¿ através da fortaleza, estão os espíritos de Anne Boleyn, mulher de Henrique VIII, que foi decapitado em 1536, Lady Jane Grey, que foi avistada por uma guarda em 12 de fevereiro de 1957, no aniversário de 403 anos de sua morte. O primeiro fantasma visto no edifício foi o de Thomas Beckett, no século13.

Castelo de Edimburgo
Com cerca de 900 anos de história, seria quase uma surpresa se o Castelo de Edimburgo não fosse um dos locais mais assombrados da Escócia. Desde a sua construção como uma fortaleza militar do século 12, o castelo foi testemunha de ataques de surpresa e execuções.
Reencarnado como uma atração turística, o Castelo de Edimburgo oferece agora passeios por suas masmorras, que já acolheu nomes como Alexander Stewart Duque de Albany (que escapou, apunhalando seus guardas até a morte, e depois queimou seus corpos), Lady Janet Douglas de Glamis (acusado de bruxaria e queimada na fogueira) e um flautista anônimo que vagou por uma das passagens subterrâneas do castelo e nunca mais voltou.
Em 2001, o Castelo de Edimburgo tornou-se o lugar de uma das maiores investigações paranormais na história. Uma equipe de nove pesquisadores e mais de 200 membros do público exploraram câmaras do castelo e passagens secretas em busca de sinais de acontecimentos fantasmagóricos.
Mais da metade dos participantes relataram experiências paranormais. Figuras sombrias, quedas bruscas de temperatura e a sensação de algo puxando suas roupas estão entre as experiências cotidianas.
                                                       
 Campo de Gettysbu
A batalha de Gettysburg durou três dias e foi uma das mais sangrentas da história americana, com cerca de 50 mil soldados mortos no conflito. Com tantos homens jovens mortos de forma tão violenta, muitos acreditam que o local é assombrado por soldados caídos incapazes de aceitar a morte prematura. Dizem que estas almas inquietas vagam pelos campos da Pensilvânia, em busca de seus rifles e companheiros, sem saber que a batalha já foi encerrada.

A Fazenda de Murta
Esta propriedade em St. Francisville, Louisiana, construída em 1796, pelo general David Bradford, é considerada um dos lugares mais assombrados da América. Alguns dizem que nela ocorreram mais de dez assassinatos.
Um dos contos mais populares relata a história de uma ex-escrava chamada Chloe que, diz a lenda, teve sua orelha decepada por seu mestre. Ela teria tentado vingança pelo envenenamento de um bolo de aniversário, que matou as duas das filhas do mestre de escravos. Os espíritos de Chloe e das crianças estão entre as aparições relatadas na propriedade.

Navio Queen Mary
O Queen Mary é um antigo navio da Segunda Guerra, que foi adquirido pela cidade de Long Beach em 1967 e transformado em um hotel, e se tornou uma atração turística popular. Entre os fantasmas, supostamente ainda estão um marinheiro que morreu na sala de máquinas do navio, a “dama de branco”, e as crianças que se afogaram na piscina da embarcação. No total, foram catalogados 55 espíritos no Queen Mary. O navio é listado no Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos e está permanentemente ancorado em Long Beach, Califórnia, e também funciona como museu.

    Penitenciária Estadual da Filadélfia 
Criada em 1829, com imponentes paredes de castelo e torres de vigia, a Penitenciária Estadual Oriental (Eastern State), na Filadélfia, foi a primeira prisão a ter uma solitária. Presos ficavam sozinhos, comiam sozinhos e até os exercícios eram feitos individualmente. 
Eastern State foi acusada de ter causado doença mental entre os seus prisioneiros. Ela funcionou como uma prisão de 1913 até ao seu fechamento em 1970, e abrigou criminosos famosos, como Al Capone.
Desde quando foi desativada, a penitenciária passou a receber visitação pública e se transformou em um museu. Desde então, tem se ouvido histórias sobre sons vindos das celas, barulhos estranhos e solitários lamentos de frio nos escuros corredores.
A cela número 12 é famosa por uma risada assombrosa e a torre de guardas acumula relatos de aparições de uma figura sombria que vigia a prisão durante as noites.
  Casa Whaley
Mesmo os mais céticos do governo não puderam refutar as provas de que esta casa no bairro de San Diego abriga espíritos. Na década de 1960, o Departamento Americano de Comércio classificou a Casa Whaley como mal assombrada.
O Travel Channel também classificou a casa como a mais sobrenatural da América. Seu primeiro fantasma foi Yankee Jim Robinson, que foi enforcado no local em 1852. Quando James Whaley construiu a casa em 1987 (que em meados do século 19 serviu como um celeiro, tribunal e armazém geral), ele afirmou ouvir barulhos feitos por Robinson pelos corredores.
Os visitantes também têm relatado aparições de uma menina surpreendente jovem em um vestido longo na sala de jantar. Quando está aberta ao público, incontáveis eventos sobrenaturais são presenciados. Sons e vozes indicam a presença de algum visitante perdido ou algum ladrão, porém, uma checagem mais detalhada mostra que nada está emitindo os sons.
  Casa Branca
A residência mais famosa da América também é supostamente uma das mais malassombradas. Segundo a tradição, alguns dos seus habitantes permaneceram na casa por causa da sede de poder adquirida durante o tempo que ali permaneceram.
Se você acredita em sussurros, dizem que o fantasma de Abigail Adams (esposa de John Adams, segundo presidente do país) faz roupas no quarto leste, enquanto o espírito de Dolley Madison gosta de se esconder em torno do jardim.
Mas o fantasma mais ilustre, sem dúvida, é do lendário Abraham Lincoln, que ainda ocupa o quarto do ex-presidente, segundo a lenda.

  Mansão Winchester
Após a morte de seu marido e filho, Sarah Winchester (a esposa do filho do criador de rifle) consultou um vidente. E esse proclamou que sua família fora morta pelos fantasmas daqueles que morreram de balas das armas Winchester.
O vidente sugeriu que apenas a construção permanente na mansão da família poderia acalmar os espíritos. Assim, ela deveria construir quartos para que os espíritos de luz permanecessem na casa, proporcionado a paz para que os barulhos cessassem. Mas nada disso aconteceu. Os barulhos continuavam a atormentar Sarah, que resolveu construir a casa até o fim de sua vida.
A propriedade de 160 quartos é realmente bizarra. Escadas que não levam a lugar algum e portas que abrem para paredes. O chefe de obras chegava pela manhã e Sarah dava as instruções do que queria para o dia. E no dia seguinte ela poderia demolir o que foi feito no dia anterior e reconstruir de outra forma. Assim os espíritos poderiam ficar mais e mais confusos.

Fonte: Terra

09 agosto, 2012

Uma noite medonha na estrada assombrada...

 

Há algum tempo numa cidadezinha mineira, Dito que era pedreiro e seu amigo Tonho que sempre o ajudava como servente pegaram um serviço de empreita em um lugar distante da cidade próximo ao distrito de Candelária, já na serra da Mantiqueira. Chegaram lá em um domingo a tarde pois pretendiam começar o serviço na segunda e terminar na sexta, o lugar é bastante desabitado, a casa mais próxima do rancho onde se estabeleceram fica a mais de 1 km e o local é uma serra íngreme onde carro só chega em tempo de seca. Eles começaram o serviço e na quarta-feira precisavam comprar mais algumas coisas já que não levaram o suficiente para toda a semana até mesmo porque era uma motivo justo para sair um pouco daquele lugar ermo, com fama de mal assombrado, onde raramente se via viva alma.
Terminaram o serviço lá pelas 17:00 e desceram até o vilarejo de Candelária que ficava a uns 7 ou 8 km de onde estavam. Como estavam tranquilos e sem pressa chegaram na vila mais ou menos 19:00. Como são bastante conhecidos, e como todo bom mineiro compraram o que precisavam na venda e ficaram fazendo hora no boteco mais movimentado do lugar, jogando uma sinuquinha e conversa fora. Lá pelas 22:30 perceberam que já estava tarde e para subir a serra é mais demorado. Mas o dono do boteco que era muito amigo dos dois insistiu que eles dormissem num quartinho que tinha ali mesmo no boteco e irem embora no outro dia de manhã porque a estrada que ia para onde estavam era assombrada conforme moradores locais que contam casos medonhos de aparições, alguns bem sinistros.

O Tonho já estava até aceitando a idéia mas o Dito que não era muito supersticioso e já tinha tomado umas pingas disse que se ficassem ali tinham que levantar de madrugada no dia seguinte se ali ficassem e preferia ir naquele horário mesmo. E lá foram os dois. Era noite de lua e o céu estava muito limpo a lua clareava bem o caminho. Quando estava faltando pouco menos de 2 km para chegarem ao rancho, no trecho da trilha que dava início à parte mais dura da subida, escutaram no meio de uma matinha um ronco estranho e amedrontador. O Tonho ficou de cabelo arrepiado na hora, mas o Dito que era um pouco mais corajoso e com a ajuda da pinga disse "se for o demônio pode vir que eu enfrento", mal terminou a frase o céu que estava limpo começou a formar umas nuvens escuras e uma ventania muito forte, aí a situação ficou apavorante e tiveram que correr, ao passarem debaixo de um bambuzeiro enorme que lá tinha, os bambus deitavam na estrada por causa do vento parecia que ia cercá-los e junto com o vento aquele ronco horrível que nunca ouviram antes, cada vez mais forte e ensurdecedor.

Subiram a serra correndo o mais que podiam, sentindo que atrás deles uma sombra negra os acompanhavam. Somente quando estava faltando pouco para chegar ao rancho as nuvens e o vento foram desaparecendo como mágica, trazendo de volta a tranquilidade e a lua brilhou no céu limpo novamente. Os dois chegaram exaustos com a língua de fora como se diz em Minas. O Tonho ficou com tanto medo que na correria bebeu quase toda a garrafa de pinga que compraram, pra ver se dava mais força, mas nem ficou bêbado. Mal dormiram a noite e no dia seguinte pegaram suas coisas e sumiram dali, não quiseram mais saber de terminar a empreitada. Não dava para ficar.

Postado por Paulo Moraes em seu blog Panacéias Essenciais.



06 agosto, 2012

A Visão, de L.F. Riesemberg.

Por mais que Leandro abrisse os olhos, tudo o que ele encontrava por todos os lados era uma infinita escuridão. Tinha passado mais de um terço da vida completamente cego, e só tinha quatorze anos.
Em uma fria manhã, o menino sentou-se num sofá do saguão do pequeno hotel de sua mãe e passou a ouvir o rádio, acreditando estar sozinho naquele ambiente. Curtia a música baixinha, até que escutou a voz de outro menino, certamente um pouco mais novo, espantado:
— Olha só que sinistro este livro que deixaram aqui em cima: as páginas estão todas em branco!
Eduardo, sem enxergar coisa alguma, mas já sabendo do que se tratava, riu e voltou o rosto para o lado de onde vinha a voz:
— Não está em branco. É um livro em Braille — explicou. Ele sempre pegava algum documento deste tipo, na classe especial onde estudava, para praticar a leitura em casa. 
— E o que é isso? Um código secreto? — perguntou a voz na escuridão.
— Nunca ouviu falar? O Braille é uma linguagem criada para que os cegos possam ler. Se não percebeu, eu sou um deles.
A voz no outro sofá fez uma breve pausa, talvez devido ao embaraço sentido, para só então se manifestar:
— É, eu estranhei mesmo você estar usando esses óculos escuros aqui dentro. Achei que fosse meio metido a estrela de cinema, ou coisa parecida. Você não enxerga nada mesmo?
— Nadinha.
—Desde quando?
— Faz exatamente quatro anos, oito meses e quatorze dias. Mas estou na lista de espera de um transplante. Preciso de olhos bons para poder ser médico. Assim que der tudo certo, vou voltar a ver como antes.
— E como é que você lê desse jeito?
O garoto cego pediu que o outro lhe emprestasse o livro, que logo foi depositado cuidadosamente sobre seus joelhos. Leandro abriu em uma página qualquer e, com a ponta dos dedos, passou a decifrar os caracteres salientes do papel e a enunciar o conteúdo em voz alta, em ritmo pausado.
— Das ja-ne-las ve-jo o Se-na que cor-re ao lon-go do meu jar-dim por trás da es-tra-da...&
O outro menino espantou-se:
— Nossa, que fantástico! Você não enxerga nada, mas pode ler palavras que eu não vejo. Isso é uma espécie de mágica!
Na conversa que seguiu, Leandro explicou que aquele hotel era de sua mãe e que, portanto, ele vivia ali.
Era sempre bom ter alguém interessante com quem conversar, mas também era um pouco triste acostumar-se com os hóspedes. Na maioria das vezes eles iam embora logo que começavam a demonstrar ser figuras interessantes, e nem ao menos podiam deixar seus rostos na lembrança do garoto cego. Foi por isso que Leandro decidiu não querer saber muito a respeito dessas brevíssimas amizades: não importava de onde vinham, para onde iam, o que estavam fazendo na cidade, e nem ao menos seus nomes. Tudo o que interessava era a conversa que mantinham naqueles poucos instantes. Achava que desta forma não teria como sentir saudades.
Contudo, naquele dia algo parecia estar diferente. Uma estranha sensação fez com que Leandro acreditasse que aquele menino ficaria com ele por mais tempo.
— Como foi que você ficou cego? — quis saber a voz.
Leandro se surpreendia quando lhe perguntavam isso tão espontaneamente. Era um tanto difícil alguém questionar algo delicado assim, por mais que a curiosidade fosse óbvia. Mas aquela voz — talvez por saber que os destinos de ambos se separariam tão rápido como se cruzaram, ou talvez por se sentir totalmente à vontade com o novo amigo — não teve o escrúpulo de permanecer com a dúvida.
E por falar disso com tão pouca frequência a estranhos, aquela questão ainda era um tanto dolorosa para Leandro. Ele arrependia-se mortalmente do dia em que, brincando de fazer aquelas velhas bombas com garrafas plásticas e cal, uma delas explodiu perto demais de seu rosto. A última coisa que enxergou foi a total brancura de milhares de partículas do pó espirradas em seus olhos, como flocos de neve, para depois não conseguir ver mais nada deste mundo. Com aquela explosão sua vida anterior adquiriu a aura de um sonho, e foi isso que tentou explicar para a companhia que lhe fazia perguntas naquela manhã de inverno.
A voz permaneceu em silêncio por alguns instantes após o relato. Para o cego, havia sido afetada pelo seu drama e não sabia mais o que dizer — era a reação mais comum a todos que ouviam sua história.
Mas a conversação ainda continuaria.
— Você disse que se lembra do tempo que enxergava como se fosse um sonho. Mas foi um sonho bom, daqueles que a gente quer sempre voltar, ou dos ruins, que é melhor esquecer?
Já isso era a primeira vez que alguém perguntava. As únicas lembranças da visão que vieram à mente de Leandro foram de ótimos momentos entre amigos, subindo em árvores, jogando bola, correndo pelo mato com seu velho cão, pescando com o falecido pai, fugindo de um enxame de abelhas após atirar uma pedra na colmeia...
— Um sonho bom, com certeza.
E continuou por mais um breve tempo recordando esses agradáveis e coloridos dias, de modo que uma lágrima ameaçou rolar pelo rosto.
Sem saber se o outro menino havia percebido o prenúncio de choro, Leandro enxugou os olhos ocultos pelas lentes dos óculos e ouviu, da voz:
— Ah, ser cego não deve ser tão ruim assim se você consegue se lembrar de quando enxergava. Eu sempre tive pena dos cegos de nascença: imagine não saber como são as coisas! Como será viver sem nunca ter visto a própria aparência no espelho? Deve ser quase como não existir!
Eduardo concordava quanto à afirmação, mas também era a primeira vez que alguém lhe dizia algo tão sincero, sem medo de medir as palavras.
— Além do mais — continuou a voz — há tanta gente cega que faz coisas tão extraordinárias, não é? Tem aquele cantor negro que toca piano, e até um super-herói dos quadrinhos, que se veste de vermelho...
— O Demolidor — completou Leandro. — Sempre falam dele para mim, mas não tive a chance de ler seus gibis, enquanto podia.
— São muito legais. Ei, por que você quer ser médico?
— Bem, isso veio depois que fiquei cego. Passei um bom tempo internado em hospitais, fiz cirurgias e precisei de muita gente cuidando de mim. Nem todos os médicos e enfermeiras eram legais, mas alguns eram ótimos, que me faziam sentir bem só com algumas palavras, entende? Acho que eu queria mesmo era poder ajudar os outros, assim como eles fizeram e continuam fazendo comigo.
Leandro sentia-se muito bem enquanto falava sobre seu sonho, apesar dos desafios que teria que vencer até chegar lá. Talvez o menino com quem conversava duvidasse de sua capacidade, mas esses admirados médicos, além de alguns professores e, principalmente, sua própria mãe, sempre lhe diziam para continuar acreditando que um dia voltaria a enxergar, e que tudo daria certo em sua vida.
A voz no outro sofá, depois de ouvir o relato do garoto cego, resolveu também abrir-se com o recém-conhecido, e fez uma confissão.
— Sabe, eu também tenho um problema. E acredito que é bem mais grave que o seu. Na verdade meus pais estão muito preocupados, quase sem esperanças já.
— Ah, é? Mas você parece tão bem! — admirou-se Leandro.
— Obrigado. É que você enxerga tudo de outro jeito. Desculpe, mas não vou falar mais nada sobre esse assunto, porque prefiro que você continue me vendo assim.
Qualquer um sentiria grande curiosidade por saber qual era o problema daquele menino. Com Leandro não foi diferente. Mas assim como ele queria ser reconhecido como um ser humano igual a qualquer outro — e não como um simples deficiente — ele logo deixou de pensar nas possíveis deformidades físicas do dono daquela voz, e concluiu que aquele menino lhe fazia sentir-se muito bem, independentemente de como fosse a saúde dele, ou sua aparência.
— Ta bom, não precisa falar. Vamos conversar sobre outra coisa, então.
Nisso, surgiram alguns passos no corredor, e o garoto avisou ao cego que precisava ir embora.
— Tenho que ver algumas pessoas antes de partir. Foi legal falar com você.
Leandro, que durante os minutos de bate-papo acostumara-se com aquela presença ao seu lado, quase teve o ímpeto de perguntar o nome do interlocutor. Na verdade o que mais queria saber era se teriam outra oportunidade para conversar, ou se aquela era a primeira e a última vez. Mas sentiu que se desapontaria caso esperasse algo mais daquele misterioso garoto.
— A gente se vê por aí — a voz falou, já à distância, e sumiu pela porta.
Os passos que se aproximavam eram inconfundivelmente os da mãe de Leandro. Ela chegou muito próximo ao filho e, mesmo nas profundezas do escuro em que vivia, ele sentiu que ela tinha algo importante a lhe dizer.
— Mãe? Está tudo bem?
Ela pigarreou um pouco, como sempre fazia antes de dar alguma notícia não muito boa, e então tomou coragem para falar:
— Sim, filho. Comigo está tudo bem. E com você?
O menino sabia que havia algo errado na voz dela.
— Comigo tudo ótimo. Acabei de conversar com um hóspede muito bacana. Sabe se ele está aqui com os pais, e até quando eles ficam?

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A mãe, estranhando aquelas falas do garoto e temendo dizer algo impróprio, obrigou-se a falar aquilo que incomodava seu íntimo.
— Lê, meu anjo, achei que você soubesse: não há ninguém hospedado aqui hoje! 
— Como não, mãe? E quem era esse menino?
A mãe o fitou, procurando entender o que se passava, e revelou:
— Eu passei duas vezes pelo saguão nos últimos dez minutos, achando que você estava cantando baixinho a música do rádio, ou ensaiando as falas para algum teatro da escola, e não quis interrompê-lo, pois sabia que você teria vergonha. Mas agora não aguentei e vim para tirar a dúvida. Filho, você estava falando sozinho todo esse tempo...
O telefone tocou naquele instante, cortando a frase da mãe preocupada, que foi atender ao aparelho. Leandro ficou processando o que acabara de ouvir e lembrou com nitidez da corrente de ar que havia passado por ele há um minuto, denunciando que o dono da voz com quem conversara havia se deslocado para a porta de saída. Então ele levantou-se do sofá e, com a ajuda da bengala, para a porta dirigiu-se.
A fechadura ainda estava trancada, então Leandro a abriu e pôde sentir em seu rosto o frio daquela manhã. O vento parecia querer brincar com o garoto, desarrumando seus cabelos e assoviando em seus ouvidos, e assim permaneceu por alguns segundos, até lhe arrancar um sorriso.
De repente tudo ficou calmo lá fora, num pacífico silêncio.
Em pensamento, o cego perguntou para o nada: “Você vai voltar?”. Mas não houve qualquer resposta, e o que lhe restou foi regressar para dentro e fechar a porta.
Após aquilo, mãe e filho voltaram às suas atividades normais, recebendo novos hóspedes, e não mais falaram daquele insólito incidente.
Leandro chegou a manter alguns diálogos com os novos fregueses do hotel nos dias seguintes, porém não achou que eles sentiam-se à vontade com sua presença, pois sempre mediam muito as palavras antes de tocar no assunto da cegueira.
Dias depois do ocorrido, quando Leandro estava outra vez sentado no sofá do saguão, o telefone começou a tocar. Ao mesmo tempo em que sua mãe corria para atender, um sussurro em seus ouvidos fez com que se arrepiasse da cabeça aos pés. As palavras pronunciadas foram: “Ninguém precisa de olhos para sentir o vento, um abraço, a chuva ou a música. Pense nisso quando for médico e estiver cuidando de meninos como eu”.
Ainda paralisado com o choque, ouviu a mãe soluçar ao telefone, dizendo coisas como “o que?”, e “ai minha nossa”, e então “que triste!”, e fazendo perguntas, e depois “em coma?”, e “precisamos fazer uma oração”...
Não era possível entender muita coisa, nem do que se passou antes, e muito menos sobre o que se tratava aquela conversa telefônica, e Leandro só conseguiria a resposta depois que ouviu o gentil clique metálico do fone sendo depositado ao gancho.
A mãe, com a voz emocionada, lhe disse:
— Filho, meu amor. Um menino da sua idade, que ficou em coma por duas semanas, acabou de falecer. Os pais dele autorizaram a doação. Você vai voltar a enxergar, querido!

Todos precisam de bons olhos para ver algumas belezas do mundo. Mas conforme um grande sábio costumava dizer, há coisas que só são visíveis para aqueles que sabem olhar mais além; estes, não utilizam um par de olhos, mas a sutileza da alma.

 L.F. Riesemberg In: Contos Fantásticos.