[Valid RSS] [Valid RSS] Lendas Artes e Literatura Góticas

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08 dezembro, 2013

Do Além... Conto de H. P. Lovecraft

Horrível, para além de qualquer concepção, foi a mudança por que passou meu melhor amigo, Crawford Tillinghast. Eu não o vira desde aquele dia, dois meses e meio antes, quando ele me falou da meta em direção à qual suas pesquisas físicas e metafísicas se encaminhavam e quando respondeu à minha demonstração de espanto e medo expulsando-me de seu laboratório e de sua casa num estouro de raiva fanática.
Eu sabia que ele agora passava a maior parte do tempo fechado em seu laboratório no sótão com aquela maldita máquina elétrica, comendo pouco e afastado até dos próprios criados, mas não pensara que um período tão breve de dez semanas pusesse alterar e desfigurar de tal maneira uma criatura humana. Não há prazer em ver um homem garboso tornar-se magro de repente, e é pior ainda quando a pele flácida começa a amarelar ou a acinzentar, os olhos fundos, esgazeados, brilhando de modo sobrenatural, a testa enrugada e coberta de veias, e as mãos trêmulas e contorcidas. E se, adicionado a isso, houver um desalinho repulsivo, uma desordem louca do vestir, moitas de cabelos escuros esbranquiçados na raiz, e uma sombra de barba não aparada sobre um queixo que sempre fora cuidadosamente barbeado, o efeito cumulativo será chocante.
Mas esse era o aspecto de Crawford Tillinghast na noite em que sua mensagem pouco coerente me trouxe até sua porta depois de semanas de exílio. Tal era o espectro que tremia enquanto me fazia entrar, uma vela na mão, a olhar furtivamente por sobre o ombro, como se receoso de coisas invisíveis na casa antiga e solitária, situada ao fundo da Benevolent Street.
Para Crawford Tillinghast, ter um dia estudado ciência ou filosofia fora um erro. São coisas que deveriam ser deixadas para o investigador impessoal e frio, pois oferecem duas alternativas igualmente trágicas ao homem de sentimento e ação: desespero, se fracassa em sua busca, e terrores indizíveis e inimagináveis, se obtém sucesso. Tillinghast fora presa uma vez do fracasso, da reclusão e da melancolia; mas agora eu sabia, entre receios repelentes de minha parte, que ele era presa do sucesso. De fato, eu o tinha alertado, duas semanas antes, quando aventou, num ímpeto, a história do que estava prestes a descobrir. Tornara-se vermelho e excitado, falando num tom de voz muito alto e antinatural, embora sempre pedante.
"O que sabemos", ele dissera, "sobre o mundo e o universo ao nosso redor? Nossos meios de receber impressões são absurdamente escassos, e nossas noções dos objetos que nos cercam são infinitamente estreitas. Vemos as coisas somente na medida em que somos construídos para vê-las e não podemos fazer idéia alguma de sua natureza absoluta. Com cinco débeis sentidos, queremos compreender o cosmos ilimitadamente complexo, enquanto outros seres, com uma gama de sentidos diferente, mais ampla ou mais possante, não apenas poderiam ver de modo diferente as coisas que vemos, como também ver e estudar mundos inteiros de matéria, energia e vida que jazem próximos de nós, mas que não podem ser detectados com os sentidos que temos.

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07 dezembro, 2013

A Dança do Pesadelo


Um marido e três filhos, uma casa, umas festinhas de vez em quando, muita simpatia e energia de sobra. A princípio, Thina parece ser uma mulher normal com uma vida realizada, mas se não fosse um gosto estranho por certos escritos e músicas sombrias, ela não teria pela frente um acontecimento tão terrível em sua vida.
Thina Curtis era uma grande fã de um fanzine chamado Sombrias Escrituras, e admirava a música de Getúlio Silenzio, cujo projeto musical ele mesmo denominou como sendo “Gargula Valzer”.
O marido de Thina a avisava sobre seus estranhos gostos para música e literatura: “Não fique lendo muito esse fanzine, e essa música então! Você vai acabar tendo pesadelos...”
De fato, o fanzine Sombrias Escrituras só trazia em suas páginas versos desesperados de melancolia, suicídio, soturnismo, horror, terror e depressão. Eram poemas sombrios, às vezes acompanhados por ilustrações inquietantes. Os artigos só traziam como tema a literatura de autores atormentados pelo lado mórbido da vida, muitos eram suicidas. E a música do Gargula Valzer, algumas vezes, trazia um tempero parecido, e ainda era acrescido de temas vampíricos.
O responsável pelo fanzine Sombrias Escrituras era conhecido pelo pseudônimo Sr. Arcano, e dizem as más línguas que Arcano e Getúlio Silenzio conspiravam nas sombras um meio de fazer prevalecer as forças das trevas, influenciando seus fãs para o caminho do mal...
Mas Thina Curtis não se importava com nada disso. Ela adorava ler todas as edições do fanzine Sombrias Escrituras, e delirava com os CDs do Gargula Valzer! Em seu quarto ela guardava numa estante os fanzines e CDs, e tinha pôsteres de Getúlio Silenzio e Arcano colados nas paredes. Sem dúvida, ela era uma criaturinha das trevas!
E mesmo com três filhos para criar, ela ainda tinha tempo de sair para as festas góticas de São Paulo. Com muita bebida e música fazendo sua cabeça girar, ela viajava no mundo de Getúlio e Arcano. Thina sonhava acordada com castelos assombrados habitados por vampiros, e Getúlio Silenzio sentado num trono oferecendo a ela uma taça de sangue; Cemitérios em que os poetas suicidas das Sombrias Escrituras saíam de seus túmulos para um Sabat regado a vinho e poesia. E alguns personagens surgiam para atormentar sua mente ainda mais atormentada: Alessandro Reiffer, o poeta maldito que queria, a qualquer custo, um apocalipse para acabar de vez com essa humanidade asquerosa, vinha num enorme cavalo negro que exalava fogo das narinas, e logo atrás vinha Marcos T. R. Almeida, o insano!, carregando em correntes várias mulheres para suas orgias demoníacas. Mas esse mundo maldito não era constituído só de homens, pois logo atrás vinham as vampiras Ânira Noctum, um cadáver, que em vida chamava-se Dejanira; e Kleide Keite, com lágrimas negras caindo de seus olhos sombrios. E logo depois vinha a terrível bruxa Rosana Raven, invocando uma tempestade terrível para essa reunião de seres malditos.
Thina pensava no que seu marido lhe dizia: “Não fique lendo muito esse fanzine, e essa música então! Você vai acabar tendo pesadelos...”. E ela ficava pensando: “Ah! Como seria legal se eu sonhasse com isso tudo!”. Mas Thina só podia mesmo imaginar, porque nunca em seus sonhos ela viu sequer um personagem desses.

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24 outubro, 2013

Aspectos do gótico nos contos de Alvaro de Azevedo


Alguns escritores do Romantismo se posicionaram contra os valores racionalistas e materialistas da sociedade burguesa, se identificaram com um ambiente satânico, misterioso, de morte, sonho e loucura, criaram então uma literatura fantasiosa. Trata-se da literatura de tradição gótica. 
Álvares de Azevedo introduziu na literatura brasileira elementos da tradição gótica, como a morte, o ambiente noturno, o amor, o vampirismo. Essa produção rompe com os valores da sociedade, pois apresenta um caráter marginal. 
Há outros escritores que tiveram ligações com essa tendência, na Europa, Charles Baudelaire e Mallarmé, nos Estados Unidos, Edgar Allan Poe e no Brasil, Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e Augusto dos Anjos. 
As obras Noite na Taverna (contos) e Macário (peça teatral) representam a produção gótico-romântica em prosa; ambas de Álvares de Azevedo. 
Influenciado pelas obras de Lord Byron, Álvares de Azevedo foi o maior representante da Segunda Geração Romântica- Os Ultra-româticos. Sua prosa apresenta o noturno, o aventuresco, o macabro, o satânico, o incestuoso, os elementos do romantismo maldito que segue a linha gótica . Abrangem o amor e a morte sob uma perspectiva exacerbadamente egocêntrica.
Mais do que em outras gerações do romantismo, o ultra-romantismo se destacou através do sentimentalismo excessivo e sombrio. Além disso, vários de seus autores tiveram a existência marcada pelo sofrimento, e um reconhecimento literário póstumo.
Assim também foi a trajetória do mais famoso ultra-romântico brasileiro: Álvares de Azevedo viveu e escreveu sob a tétrica fluência Byroniana, falecendo precocemente no dia 25 de Abril de 1852, antes de completar 21 anos. Enquanto seu corpo era sepultado, o amigo Joaquim Manuel de Macedo recitava "Se Eu Morresse Amanhã"; obra escrita por Álvares de Azevedo poucos dias antes. Mas o poeta teria pressentido sua morte? A obra do poeta apresenta elementos próprios da literatura gótica:

SOLFIERI

Sabeis-lo. Roma e a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio a convulsão do amor, o beijo lascivo a embriaguez da crença!
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de as luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca.—A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida a lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela e daí um canto se
derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas.
Não viu a ninguém—saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas pesadas: apenas eu
sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos de órfão..
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em
torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a
criatura pálida não fora uma ilusão—as urzes, as cicutas do campo santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido a chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e
repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me
vinha aquela visão.

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