O poeta Charles Baudelaire era um leitor de Edgar Allan Poe (escritor, poeta, crítico literário americano e um dos percursores da literatura de ficção científica, fantástica, moderna e gótica) e também tradutor de seus textos. Em sua obra, questiona o excesso de moral e sentimentalismo e se opõe à vida burguesa e às convenções da época. Em 1857 publica "Les Fleurs du Mal" (As Flores do Mal), que incorpora o grotesco (termo surgido no século XVI quando foram descobertas pinturas ornamentais em regiões da Itália; derivado do italiano La Grottesca ou Grottesco, advindos de grotta - gruta) à linguagem do romantismo.
O brasileiro Augusto dos Anjos ficou conhecido como “poeta negro” devido ao choque que seus versos causavam. Ele se utilizou de um vocabulário científico-poético, sendo inspirado pelo cientificismo, evolucionismo permeado pelo simbolismo, gerando uma poesia com tons macabros e obsessivos que mostram a destruição e decomposição física e psicológica. Em 1912 publicou o seu livro "Eu", mas que não teve a repercussão esperada. Apenas na 3ª edição, sob o título de "Eu e outras poesias" que o poeta conseguiu ser bem aceito pelo o público.
Tanto Baudelaire quanto Augusto dos Anjos utilizam em seus versos elementos góticos, fúnebres e repulsivos. São poesias carregadas que trazem o gosto pelo difícil e pela evasão capazes de unir elementos, até então, distantes do nosso pensamento.
O poema "Uma Carniça" (Une Charogne) de Baudelaire apresenta a união do grotesco com o sublime:
Recorda-te do objeto que vimos, ó Graça,
Por belo estio matinal,
Na curva do caminho uma infame carcaça
Num leito que era um carrascal!
Suas pernas para o ar, tal mulher luxuriosa,
Suando venenos e clarões,
Abriam de feição cínica e preguiçosa
O ventre todo exalações.
Resplandecia o sol sobre esta cousa impura
Por ver se a cozia bem
E ao cêntuplo volvia à grandiosa natura
O que ela em si sempre contém;
E o céu olhava do alto a carniça que assombra
Como uma flor desabrochar.
A fedentina era tão forte e sobre a alfombra
Creste que fosses desmaiar.
Moscas vinham zumbir sobre este ventre pútrido
Donde saíam batalhões
Negros de larvas a escorrer – espesso líquido
Ao largo dos vivos rasgões.
E tudo isto descia e subia, qual vaga,
Ou se atirava, cintilando;
E dir-se-ia que o corpo, inflado de aura vaga,
Vivia se multiplicando.
E este universo dava a mais estranha música,
Água a correr, brisa ligeira,
Ou grão que o joeirador com movimento rítmico
Vai agitando em sua joeira.
Apagava-se a forma e era coisa sonhada,
Um esboço lento a chegar,
E que o artista completa na tela olvidada
Somente por se recordar.
Uma cadela atrás do rochedo tão preto
Nos olhava de olhar irado
Para logo depois apanhar do esqueleto
O naco que havia deixado.
- E no entanto serás igual a esta torpeza,
Igual a esta hórrida infecção,
Tu, sol de meu olhar e minha natureza,
Tu, meu anjo e minha paixão.
Isso mesmo serás, rainha das graciosas,
Aos derradeiros sacramentos
Quando fores sob a erva e as florações carnosas
Mofar só entre os ossamentos.
Minha beleza, então dirás à bicharia,
Que há de roer-te o coração,
Que eu a forma guardei e a essência de harmonia
Do amor em decomposição.
No poema acima o poeta assume a postura do voyeur. O tema da morte é abordado de maneira mórbida, contemplado de imagens grotescas. Há a presença de dois extremos: a feiura do corpo em decomposição e a beleza da mulher, que acabou sendo comparada à carniça no sentido que esta beleza um dia será como a carniça. Esta aproximação não é de comum utilização na poesia lírica e tal fato resulta num estranhamento altamente perturbador que nos remete a conclusão que a finitude da vida seria bela. Há ainda uma mistura de sensações que compara a carniça com a mulher luxuriosa, como se o autor fosse seduzido pela visão macabra. O contraste do Belo e do Sublime se perpetua ao longo do poema. Nas três últimas estrofes se concentra a afirmação de que a beleza humana e feminina é finita e será absorvida pela Natureza. A carniça seria o destino final de qualquer ser e dele ninguém poderia fugir.
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